A questão é uma só: “V de Vingança”, que finalmente estréia nos cinemas de Bauru, é uma produção que faz apologia ao terrorismo? Baseado na minissérie em HQ de Alan Moore e David Lloyd lançada na década de 1980, o filme abandona as referências originais ao governo de Margaret Thatcher e à Guerra Fria para calcar as bases de seu roteiro na atual realidade política, no cenário de medo pós-11 de setembro e da era George W. Bush.
Na trama, a Inglaterra de um futuro próximo vive sob um governo totalitário e opressor, no qual os cidadãos passam por um rígido controle do Estado. Diálogos dão conta de explicar que a situação é decorrência de uma “guerra da América”, anos antes, que teria alcançado proporções nunca imaginadas e atingido a Europa. Nesse cenário, rebeldes, artistas e homossexuais são presos, torturados e mortos, e o medo é o único instrumento válido para recuar qualquer iniciativa de oposição.
O mascarado V (Hugo Weaving, o Agente Smith de “Matrix”) é filho direto dessa realidade. Colecionador de arte – atividade também proibida pelo regime comandado por Adam Sutler (John Hurt) – e com ares de ator teatral, ele se revela a Londres pelo sistema de comunicação do próprio governo. Depois de salvar Evey (Natalie Portman, sempre competente) de três policiais que a atacam por estar na rua após o toque de recolher, o mascarado leva a jovem para assistir seu primeiro “concerto”: a explosão do Old Bailey, a corte de Londres, ao som da “Abertura 1812” de Tchaikovsky.
A data do primeiro atentado, 5 de novembro, é o aniversário da conspiração de 1605 na qual o progressista Guy Fawkes tentou explodir o Parlamento inglês e destituir o rei James I. A máscara do subversivo anti-herói também é uma referência a Fawkes. “Lembrem-se, lembrem-se do 5 de novembro”, professa V em seu segundo pronunciamento a Londres, dessa vez pela TV, no qual convoca os cidadãos a retornarem ao Parlamento no 5 de novembro do ano seguinte para, dessa vez sim, derrubarem o governo opressor.
A trama prossegue com o desenvolvimento dos personagens, a relação de Evey com V e com seus ideais e o governo que, através de seus dirigentes ou da polícia, caça o terrorista. Sem querer esmiuçar muito a história, é importante destacar a política de medo imposta pelo Estado inglês a partir das ameaças de V, não só com o aumento da rigidez no controle da população, mas também por meio da mídia, com notícias alarmantes. É referência direta à postura do governo Bush após os ataques ao World Trade Center.
Contradições
“V de Vingança” tem roteiro e produção dos irmãos Wachowski, valorizados pela trilogia “Matrix”, com sua pseudo-fundamentação filosófica, e que, agora, foram criticados justamente por açucarar e diluir os conceitos políticos abordados no filme e os que deram origem à minissérie. Na direção, o estreante James McTeigue se mostra menos marionete dos produtores do que se esperava e consegue imprimir identidade nos diálogos. Obviamente, os Wachowski têm sua participação pomposa na maior cena de luta do longa, com estilo que foge do que a história vinha desenvolvendo até então.
A construção de V e os ideais que ele defende são tocados de forma tão superficial quanto permite um blockbuster, e ainda tão contraditórios quanto a humanidade de seu público. A busca por um mundo melhor, motivada pelo inconformismo, pela miséria, indignação e violência, é colocada em prática não de outra forma que não a própria violência.
A convocação da massa para erguer-se contra o regime opressor é um impulso para a busca de seus direitos, ainda que apenas uma desculpa para colocá-los como espectadores das ações do personagem.
V é um terrorista e o filme, seu diretor e o roteiro colocam o público a seu lado, em uma luta contra o medo e a violência, porém dão espaço aos espectadores para que questionem seus motivos e métodos. Para levar seu plano adiante e obter, finalmente, sua vingança, ele não hesita em matar ou até abdicar da própria vida. A “vendetta” do personagem é pessoal, contudo, reflete-se na maneira como toda uma sociedade sobrevive.
Há coragem na Warner Bros. em colocar nos cinemas produções contestadoras como “V de Vingança” e “Syriana”. Classificar o filme como subversivo e apologista, por outro lado, exprime falha na visão de que ele é um produto de massa, sem dúvida, mas com possibilidade de promover, mais do que puro entretenimento, reflexão e preocupação moral.