Velho e esperto amigo da Alta Sorocabana, inteligente e sabido, deputado por uns tempos e, se bem me lembro, até prefeito, apesar dos anos corridos, nunca perdeu o sentido da realidade nua a crua da política. Gostava de proclamar sempre em tom exaltado: “Eleições são movidas por fatos inusitados e espetaculares!” Estas observações eram feitas muito antes do aparecimento de Duda Mendonça, com a trampa do “Lulinha, paz e amor”. Outro caboclo sabido, também da Sorocabana, mais ponderado e matreiro, deputado por anos, gostava de lembrar, com argúcia, que nunca existiu uma eleição igual a outra. Realidade nova exige estar sempre alerta...
Eleições têm estas virtudes: bolem com a opinião pública, milhões têm que ser afetados, e nunca se repetem, como em todos os acontecimentos da história. Em cada eleição vivemos a aventura de um momento único e derradeiro. O velho genial, Karl Marx, gostava de lembrar que político, ao se inspirar no passado, produz sempre uma grande farsa.
Revolucionários, durante da Revolução Francesa, macaqueavam os romanos enquanto criavam um mundo novo. Maquiavel, procurando entender a política italiana no Renascimento, reescrevia a história de Roma. O palhaço Mussolini queria restaurar o Império Romano. Usava o “fascio” e imitava gestos teatrais de imperadores. Idiotas italianos adoravam.
A cultura clássica não é cultivada cá na nossa terra. Nossos políticos ficam querendo criar ídolos nacionais ou macaquear nossos ídolos caídos. Zumbi deixa endoidecidos os movimentos em defesa dos negros. Alguns até dançam como africanos, em pleno século XXI. Comunistas, que veneravam Prestes, reescreveram a história nacional, exaltando Tiradentes. Prestes era o novo Tiradentes: o libertador do povo brasileiro. Políticos atuais vivem falando de Juscelino a cata de identidades com o mineiro matreiro. Nem tanta simpatia assim! O Lula quer, agora, imitar Getúlio Vargas. Quer ser, até, o pai dos pobres! Virá com essa enganação na campanha eleitoral. Muitos olham incrédulos, outros extasiados. Como dizia o velho Marx, cria-se o reino da farsa, da comédia...
No mês de abril findo, rolaram as tratativas eleitorais. Época boa para se observar a política. As candidaturas estão ainda em ritmo de definição. Tudo vai será definido no mês de maio, para as convenções partidárias em junho. Começam a aflorar os interesses reais que comandam a vida política nacional. Todo mundo começa a colocar o pescoço fora d’água. O jogo fica mais transparente. Os políticos começam a fazer as contas. Será preciso estabelecer compromissos de governo. Sapear especulativamente a opinião pública, vale sempre a pena. Consultar nossas precárias pesquisas eleitorais, não ajuda muito. Todo mundo quer adivinhar para onde sopram os ventos, que atalho seguir para enfrentar o destino. O melhor e o pior da política se revelam aos nossos olhos.
Os pequenos partidos de esquerda conversam para lançar uma candidatura de consenso. Muito complicado. Heloisa Helena já está na liça. Não creio todos os pequenos partidos, tenham fôlego para acompanhar a aventurosa Heloísa Helena. A candidata rabo de foguete ficou anacrônica. Os tempos de radicalização já se foram. Vale a bela e raivosa aventura antipetista...
O PMDB continua a grande incógnita. Tempo de sobra na tevê. Partido formado por clãs políticos regionais, não consegue a unidade de um projeto nacional. Dividido entre os mamadores das benesses do governo e os que se aproximam da aliança PSDB-PFL, o drama fica mais confuso, quando os interesses das eleições regionais acabam por se sobrepor a qualquer aliança naqcional.
Alckmin começa a definir alianças. Conversações caminham com o PFL e com o PMDB. Se tudo der certo, pode muito bem compor com o PFL e levar para uma composição a maioria das candidaturas do PMDB nos estados. Tem que trabalhar duro para se tornar visível no plano nacional. Vai ocorrer com a campanha na tevê. Não pode querer por o carro na frente dos bois. Crescerá, na opinião pública, lento, gradual e seguro. Só não pisar no tomate...
Trágica e cômica poderá ser a campanha de Lula. Sua presença nas classes populares e nos rincões da pátria é destaque no início do processo eleitoral. O uso dos meios de comunicação e da máquina administrativa continuará abusivo. Mas, nuvens negras da incerteza rondam Brasília. Não querer anunciar a candidatura não é apenas esperteza para usar a máquina administrativa. Urubus voam de costas de vergonha por sobre Palácio do Planalto.
O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP