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Entrevista da semana:‘Trabalho sempre envolve conflito’

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 6 min

Às vésperas do Dia do Trabalho, uma pergunta incômoda especialmente para a classe média: só é trabalhador quem suja as mãos de graxa nos pátios da indústria? A resposta é não para Osvaldo Gradella Júnior, doutor em educação e professor do departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

De acordo com ele, qualquer um que venda sua força de trabalho e sobreviva dela, inclusive o intelectual, deve se reconhecer como trabalhador. Num bate-papo com o JC, Gradella apontou a mobilização como o único instrumento capaz de impedir a escalada da exploração sofrida por aqueles que dependem do emprego. Ele ressalta que o embate é intrínseco nesse tipo de relação porque os interesses são inconciliáveis.

A seguir, os principais trechos da entrevista com o professor, cujas pesquisas são permeadas pela discussão da saúde e das relações de produção.

Jornal da Cidade - O professor, o mestre, o doutor se consideram trabalhadores?

Osvaldo Gradelha Júnior - A grande maioria não. A idéia de sindicato, de fazer luta política é um problema. Sempre está incomodando esse sujeito que não quer se reconhecer. Ainda há uma idéia bastante atrasada de que associam o trabalhador de sindicato ao sujeito do chão de fábrica, operário do sistema industrial. Na realidade, no capitalismo, trabalhador é todo aquele que vende sua força de trabalho. Não tem discussão, não adianta querer dizer que sou diferente, não sou. Você se torna um trabalhador porque você não tem mais nada além disso.

JC - O trabalhador que não se reconhece, enfrenta uma carga mais pesada de problemas profissionais?

Gradella - O não reconhecimento já é um problema de alienação com o próprio trabalho. Na realidade, a sua atividade é o que o define como sujeito.

JC – Por causa dessa alienação os problemas trabalhistas tendem a ser mais individualizados?

Gradella - O capitalismo faz uma inversão. O problema não é mais do modo de produção, mas sim do indivíduo. É ele que na realidade não tem a capacidade para tal coisa, independentemente se as condições de trabalho são adequadas ou não.

JC – E o senhor ainda identifica esse problema na universidade?

Gradella - Bastante, porque em todas as esferas você tem a reprodução do mesmo modo de produção. Não precisa estar na fábrica. O modo de produção capitalista necessita de algumas estruturas que façam a sua manutenção. A universidade é uma delas, tanto na produção do conhecimento, quanto nas próprias relações ideológicas.

JC – A universidade então nem sempre é capaz de garantir ao aluno uma postura crítica?

Gradella - O modo de produção inaugurou o quê? Ele não só inaugurou uma forma de gerir a economia, mas também de gerir as idéias. Ele também traz para dentro da universidade a clássica idéia de neutralidade para a ciência, como se fosse possível você fazer isso. A universidade fomenta isso, ela é responsável pela manutenção do status quo.

JC – A flexibilização do trabalho sempre é ruim?

Gradella - O capitalismo só se afirma enquanto modo de produção porque ele é globalizado. Senão, não funciona. Ele depende da relação de exploração dos outros. Com a idéia de globalização, você cria a idéia de flexibilizar. Flexibilizar é a relação básica de perder direitos.

JC – A flexibilização vem junto com o neoliberalismo...

Gradella - A partir dos anos 90, existe um investimento maciço do pensamento neoliberal. O capitalismo para se consolidar precisa da questão da ideologia. Ela é violenta. Os servidores públicos de Bauru estavam em greve e algumas pessoas que vivem numa condição tão precária quanto os grevistas estavam falando mal porque o seu interesse imediato não era atendido. A saúde está um caos em Bauru desde que eu cheguei aqui, há 15 anos.

JC – Educada, a população pode lutar contra esse estado de coisas?

Gradella - A educação sempre será fundamental. Ela é uma base de qualquer construção. Mas o processo de educação é mais amplo do que simplesmente ter curso formal. O que o sujeito vai fazer na universidade é buscar referência de salário e não formação. Agora a gente vê esse monte de gente fazendo mestrados e doutorados. Virou outra competição assustadora.

JC – Mas não tem espaço para todos.

Gradella - Na verdade isso é contraditório. Se a famosa fábrica de tênis resolve ir para a Ásia, não está procurando formação. Ela está procurando lugar que não tem direitos trabalhistas, onde ela pode explorar ao máximo aquela população. Essa é a lógica colocada. Essa idéia de formação é uma mistificação. Não tem lugar para todo mundo. Com formação, ou sem formação continua o desemprego assustador. Quem está empregado tem um salário ridículo.

JC – E mesmo assim a classe média ainda sonha em ficar rica...

Gradella - A classe média é uma geléia no sentido que de ela tem ilusão que fará parte da burguesia. Ao mesmo tempo se aproxima cada vez mais do operariado, que ela tanto se incomoda porque é o cara sujo de graxa. Ela pensa que, adquirindo algumas coisas materiais, como um belo automóvel, uma casa, mudou de classe. Tem sujeitos com salários altíssimos que sofrem um pequeno problema de saúde e do dia para noite não têm mais nada. Por que? Porque só tem a venda da força de trabalho. O burguês não precisa do emprego no sentido da minha força de trabalho.

JC – Trabalho significa embate?

Gradella - No capitalismo não existe trabalho. Existe emprego. Trabalho é o que nos humanizou, o que transformou o primata em homem. É o trabalho de transformação da natureza. Ao transformar a natureza você é por ele transformado. Ele é embate porque o ato de transformação da natureza e também desse sujeito é uma relação de embate. Isso sempre será. Porém, no capitalismo, esse embate se acirra porque não há uma relação de transformação, e superação. Ela, na realidade, é uma relação de exploração.

JC - O embate é intrínseco.

Gradella - Sim, mas aí você tem que explicar esses dois movimentos. Neste momento sempre é embate. E esse embate que se coloca hoje no capitalismo é inconciliável porque é impossível um processo de acumulação sem exploração. Para você acabar com a exploração, tem que acabar com a classe que faz isso.

JC – O que resta ao trabalhador frente a esse quadro?

Gradella - Se é embate, pressupõe força. Se pressupõe força, alguém subjugará alguém. Para você não ser subjugado, tem que ter força contrária. O capital tem a força do controle da sua vida porque ele é dono do meio de produção. Você só tem força de trabalho. Porém, a tua força vai ser de todos os trabalhadores tentando impedir que esse nível de exploração leve à submissão absoluta. Organização é fundamental. Ela é a única saída para quem só tem sua força de trabalho para vender. Não existe outra estratégia.

JC - Tem quem classifique essa posição como ultrapassada

Gradella - A gente ouve isso várias vezes inclusive, nos círculos intelectuais. Tem essa discussão de que o capitalismo mostrou que ele é viável e o socialismo, não. Dizer que a URSS era o exemplo de País socialista, é desconhecer o marxismo. O capitalismo é hegemônico, ele é globalizado. O sistema socialista precisa também ser mundial, senão ele não se realiza.

JC – Mas com o tempo e a tecnologia, o trabalho mudou...

Gradella - O trabalho está lá. Ele pode ter trocado de lugar, mas está lá. As pessoas acham que sair da fábrica para ir para casa mudou a qualidade. Há uma mudança. O dado principal da mudança é justamente a flexibilização dos direitos de trabalho.

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