Trabalhar à noite pode parecer um verdadeiro transtorno para algumas pessoas, principalmente para aquelas que preferem vivenciar os períodos matutino e diurno. O relógio biológico se altera e este tipo de profissional precisa se habituar a viver num ritmo inverso ao da maioria das pessoas. No entanto, grande parte dos trabalhadores noturnos garante que a noite tem muitas vantagens, como o silêncio, o ar fresco e, claro, o adicional salarial.
Porteiros, vigias, motoristas de ônibus, mototaxistas e garçons são alguns dos profissionais que têm turnos depois que o sol se põe. A solidão noturna geralmente é combatida com rádio, TV, leitura ou bate-papo. E um sono eventual pode ser afastado com café, pó de guaraná ou uma breve caminhada.
José Antônio de Brito, 51 anos, é porteiro há mais de 30 anos. Ele conta que durante quase toda sua vida profissional trabalhou à noite e que o seu organismo e sua família já se acostumaram. “Gosto da noite por ser mais tranqüila. E de dia sobra tempo para ir ao banco e fazer outras atividades e programas com os filhos e com minha esposa. Se dá sono ando um pouco pelo pátio do prédio”, afirma.
Casado e pai de três filhos, Brito trabalha na portaria de um prédio residencial onde o predomínio de moradores são estudantes universitários. “Apesar de ser um período calmo, de noite tem mais gente em casa e, às vezes, acontece algum desentendimento entre moradores, mas aqui é um prédio tranqüilo. E também já aprendi a intermediar os interesses de cada morador”, diz.
Há mais de quatro anos trabalhando como supervisor de pessoal de uma administradora de condomínios no período noturno, Eduardo Lourenço explica que já se habituou a dormir pouco. ”Em geral, durmo das 7h às 11h, pois trabalho à tarde. O maior problema é não poder ir a uma festa de amigos ou da família por estar trabalhando. De resto, gosto bastante”, avalia.
Para ele, que faz ronda em todos os prédios administrados pela empresa na qual trabalha, há muitos porteiros que não gostam do horário, mas optam pela noite por conta do adicional salarial.
De acordo com Milton Antônio de Barros, proprietário de uma administradora de condomínios, o adicional salarial noturno da categoria é de 20% e, segundo estabelecido pela Consolidação da Leis do Trabalho (CLT), passa a valer após as 22h. Para ele, o funcionário que trabalha à noite deve ter características específicas. “Tanto a cabeça quanto o corpo devem estar preparados e o metabolismo precisa estar acostumado, pois o ritmo de vida é bem diferente do da maioria das pessoas. Analisamos o histórico do profissional e damos preferência para aqueles que já trabalharam à noite”, salienta.
Amadeu Ribas, 48 anos, motorista de uma empresa de ônibus interestadual, conta que dirigir à noite é uma questão de costume, mas que às vezes o cansaço pode ser uma armadilha. “Sempre tem algum passageiro que não consegue dormir e vem conversar. Isso é muito bom, porque a viagem fica menos solitária e afasta o sono. Não é fácil ficar horas olhando para as faixas das pistas e para os faróis do carros”, expõe.
Bandejas
Cai a noite. A maioria das pessoas voltam para casa depois de mais um dia de trabalho, tomam banho, ligam para os amigos e saem para comer, beber e se divertir. Neste mesmo momento, Jeferson Barbosa, 40 anos, se prepara para trabalhar. Garçom há 23 anos, ele conta que “quase sempre” serviu os clientes no período noturno.
De segunda-feira a sábado, Barbosa encerra seu expediente por volta da 1h. Já na sexta-feira e no sábado, o serviço vai até as 5h. “Cansa um pouco, mas gosto da noite. É um ótimo horário para trabalhar, conversar e fazer amigos”, afirma.
O “Tio”, como Barbosa é conhecido entre os fregueses, é casado, tem oito filhos e uma neta. Apesar de tantas pessoas para dividir a atenção, ele ressalta que a família está mais do que acostumada. “Quando meus filhos nasceram eu já trabalhava de noite. Então eles nem sabem como é o pai trabalhando em outro período”, brinca.
Outro que não se lembra mais como é dormir à noite e trabalhar de dia é o entregador de pizzas Flávio Corrales, 30 anos. Ele começa seu turno por volta das 18h e vai até à meia-noite. Na seqüência já emenda com o ofício de mototaxista e trabalha até o amanhecer. “Faz cinco anos que trabalho nesse ritmo. Encontro minha esposa e meu filho só nos finais de semana”, frisa.