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A mordida do leão


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Terminou a temporada de assalto do governo federal ao bolso da classe chamada “média”, com o final do prazo para declaração do Imposto de Renda. Eu e o Tonhão, que pagamos pela mesma alíquota, temos muito a lamentar. Tonhão a que me refiro é o Antonio Ermírio de Moraes, dono da maior fortuna individual do Brasil e que está na lista dos biliardários do mundo, da revista “Forbes”. Neste País, quem ganha mais de R$ 2.326 mensais é considerado rico, igual ao Tonhão. Este “mijonário” que vos fala paga a alíquota máxima de 27,5%, igual a quem ganha “mijones” por mês. O que o governo nos dá de volta para surrupiar quatro dos nossos treze salários anuais? Nada. Nem banana.

Muito pertinente a matéria publicada em “O Globo”, de semanas atrás, sobre um estudo da empresa de consultoria Ernest & Young do Brasil. O que sobra de dinheiro ao brasileiro que ganha R$ 69 mil por ano, considerado “rico” pelo fisco, depois de pagar as despesas comuns de uma família com dois filhos (alimentação, escolas, aluguel) é igual a R$ 728. Essa dinheirama toda é para o cidadão, durante o ano, levar a mulher e os filhos para comer pizza; viajar nas férias; ir ao cinema; comprar CD (pirata); livros; ingresso para ver o Noroeste e abastecer o carro. Em relação a este último item a situação é bem diferente dos 513 deputados federais que gastaram R$ 41 milhões de gasolina no ano passado, por conta da Câmara. Para acabar com essa “farra de bode” o presidente Aldo Rebelo limitou os gastos de cada parlamentar a 2.258 litros, o suficiente para andar 18 mil quilômetros. Nem uma gota mais...

Nos Estados Unidos e na França, quem ganha R$ 5 307 por mês está isento do Imposto de Renda porque é considerado “pobre”. Nesta altura o arguto leitor deve estar me acusando de imparcialidade por exemplificar somente com países do Primeiro Mundo. Então vamos à Bolívia, onde o presidente está pondo investidores brasileiros para fora do seu território, a pontapé: lá, a sobra de dinheiro para quem ganha R$ 69 mil anuais seria de R$ 13.494. O paraguaio na mesma situação teria R$ 15.647, mais de 21 vezes o dinheiro que sobra para o contribuinte brasileiro.Além do mais, os critérios para abatimento da renda no Brasil são considerados absurdos. Quem paga cursinho para o filho que vai fazer vestibular, ou uma escola de inglês, não pode compensar.

O deputado Pedro Tobias, formado na França com bolsa de estudos costuma dizer que quem tem residência, mesmo imigrante, naquele país, dispõe de escola, material escolar, alimentação, habitação, saúde, seguridade e transporte, tudo de alto nível. Ainda teria de sobra, se ganhasse o mesmo que aquele “rico” brasileiro de renda anual de R$ 69 mil, o equivalente a R$ 7.143, de acordo com a pesquisa. Na maioria dos países civilizados, mesmo os mais pobres, salário não é renda. Quem ganha até 30 mil dólares anuais (cerca de R$ 64 mil) é considerado um pobre coitado, digno de ajuda e, por isso mesmo, além de isenção nos impostos ainda leva uma ajuda do governo para morar com a família e estudar os filhos.

A explicação é simples e se baseia em episódios recentíssimos: na França e na Bolívia (mais uma vez, para não ficar só no Primeiro Mundo) o povo sai às ruas aos milhões, quando está descontente. O governo é colocado “em cheque”.

No Brasil pusilânime, ainda cultivamos o mito do “bom selvagem”, aquele que apanha e obedece, porque tem juízo. E, como tal, gostamos do “homem simples” para nos representar, mesmo que nem tenha capacidade de notar uma “quadrilha de criminosos” ao seu lado, como acusou o Procurador-geral da República.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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