“Vou ser sincera. Política é um assunto chato.” A estudante de Bauru, Ana Paula Viana, 17 anos, não está solitária em sua opinião. Esta é a qualificação que a maioria dos jovens, e também dos adultos, dá ao tema. Entre a juventude o sentimento que impera é de aversão e ceticismo à política partidária e institucional, de acordo com pesquisas de opinião realizadas junto a esse público.
Com a proximidade das eleições de 2006, as tentativas de despertar brasileiros de 16 e 17 anos para o voto, que é facultativo para esta faixa etária, encontram jovens que nutrem um profundo descrédito em relação aos políticos, mas que querem mudanças no País.
De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 2,2 milhões de jovens brasileiros, com idades, entre 16 e 17 anos, tiraram titulo de eleitor para votar neste ano. Isso representa 32,33% da população com esta faixa etária, uma vez que as projeções do IBGE para 2006 indicam 6,8 milhões de brasileiros com 16 e 17 anos.
Em Bauru, também de acordo com TSE, 2.961 adolescentes com estas idades tiraram título de eleitor para as próximas eleições. Nas eleições de 2004, foram 2.789. Os números são considerados baixos, indicam o desinteresse dos jovens pelos rumos da política no Brasil.
Esse cenário é apontado pela pesquisa “Juventude Brasileira e Democracia”, realizada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e pelo Instituo Pólis, que abordou 8.000 jovens com idades entre 15 e 24 anos. Entre os entrevistados, 64,7% não acreditam que os políticos representem os interesses da população e apenas 4,3% se dedicam a atividades político-partidárias.
Descrentes da atuação dos políticos, os jovens querem mudanças, segundo a pesquisa do Ibase. Querem governantes mais responsáveis e honestos. Exigem o fim da corrupção e investimentos maciços em educação. Querem ser ouvidos e pedem renovação das formas de se fazer política.
Outra pesquisa, esta realizada pelo Instituto da Cidadania entre jovens do ensino médio da rede pública e particular da região metropolitana de São Paulo, revela jovens que não pretendem participar de política partidária.
A grande maioria pretende participar da vida pública apenas como eleitores. Porém, de acordo com o estudo, os jovens acompanham os fatos políticos pela televisão e os jornais; têm as propostas de campanha como critério para escolha de candidato; acreditam que a política interfere no cotidiano da sociedade e apontam a corrupção como o problema mais grave entre os políticos.
Do ponto de vista da cidadania, a pesquisa registra que estes jovens eleitores têm consciência e valores de uma democracia moderna e, portanto, estão habilitados para participar de maneira madura do processo eleitoral.
A estudante Ana Paula afirma o contrário. Ela diz que não tirou título de eleitor e não pretende votar nestas eleições porque não se sente preparada. “Não tenho candidato e não saberia em que votar”, afirma. “Se fosse votar teria que pedir conselho dos meus pais, porque não me sinto preparada para isso.”
Ana Paula, porém, a exemplo dos jovens da região metropolitana de São Paulo ouvidos pelo Instituto da Cidadania, acredita que um critério para escolha de candidato são as propostas apresentadas. “Para mim, as prioridades devem ser educação e emprego.” Mas política não faz parte do cotidiano da jovem. “Não é um assunto que me interessa.”
Participação
Para alguns especialistas, o que ocorre, não só com a juventude, é que quando o assunto é política, o enfoque é o político. Desta forma a descrença é em relação ao sujeito político. A política em si é algo mais amplo, que extrapola a política partidária e institucional.
Fazer política é um ato inerente ao ser humano. A dona de casa que briga por vagas em creches, o estudante que exige melhorias na sua escola, que protesta contra o aumento do valor do passe de ônibus: todos estão fazendo política.
Neste contexto, o jovem que considera política um assunto chato, que não quer se envolver com política partidária, não está necessariamente alienado do que ocorre no País. A professora doutora do departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru, Loriza Lacerda de Almeida, que tem estudo sobre o comportamento sociopolítico dos jovens, afirma que eles fizeram outras opções de participação.
“O jovem trocou de fórmula, ou seja, optou por militar no campo da cidadania, que é mais amplo que o político tradicional, de caráter fortemente partidário”, afirma. “Se na década de 60 nossos jovens lutavam pela democracia, contra a ditadura e pelos direitos, hoje sem as mazelas dos anos de ferro, eles fizeram outra opção, mais adequada ao momento – a construção de uma cidadania plena e pelos direitos –, à cultura, à educação, ao conhecimento sistematizado.”
A jovem Ana Paula, que revela seu desinteresse por política, pode ser um exemplo. Ela não está preocupada com os rumos políticos do País, mas não está alheia aos problemas sociais e econômicos. “Não dá para fazer algo que mude tudo, mas dá para ajudar o que está mais próximo”, diz. Ela não faz parte de nenhum movimento cultural, não é engajada em nenhum movimento em prol da cidadania, mas busca formas de participação.
“Eu já reuni pessoas do bairro, fui na casa de vizinhos pedindo contribuições para ajudar famílias necessitadas”, afirma. Ana Paula pode estar entre os jovens que, segundo a professora Loriza, tem atuação política, mas não de forma tradicional.
“Os jovens exercem uma atividade política plena, com práticas protagonistas em que a ação social e política são vigorosas, colaborando com as comunidades menos atendidas pelo Estado e suas políticas públicas”, afirma. “Não é raro conhecermos projetos em que os jovens se lançam na empreitada de ajudar e amparar estes setores e esta é uma forma de fazer política, ou seja, realizar atividades que tem cunho transformador e que buscam assegurar qualidade de vida aos demais.”
Loriza afirma que os jovens atuam de forma direta ou indireta, através de grêmios e igrejas. “Estas ações estão carregadas de um profundo compromisso humano. Então eu digo que a juventude exerce sua militância na sociedade sim, mas as tarefas nem sempre são as tradicionais exercidas na política.”
Na análise da professora, os jovens “não ficam discursando ou prometendo, nem apontando culpados”.
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Política estudantil
O desinteresse dos jovens pela política partidária, na avaliação da professora da Unesp de Bauru, Loriza de Almeida, se deve ao fato de esta ter se tornado “muito burocrática e oportunista”. Hoje, segundo ela, a política partidária está muito mais centrada na discussão de enfrentamento do oponente, do que em produzir ações que façam a diferença.
“E a juventude, por sua natureza, é bastante prática, rápida, eficaz em seus procedimentos. Veja, quando querem fazer uma festa: eles fazem, tudo ligeiro. Quando querem apresentar um projeto para uma comunidade: eles vão até lá e se comunicam, quando querem dinheiro: fazem “pedágio””, exemplifica.
Para a pesquisadora, os jovens afastaram-se da militância partidária porque esta “transformou-se em uma coisa de caciques, apenas para iniciados. Não há propostas de formação política das pessoas. É uma pena, porque um partido é uma escola, por assim dizer.”
A política estudantil segue o mesmo caminho, de acordo com a professora.
“A burocracia institucional é muito pesada, as disputas, muitas vezes partidárias, afastam aqueles que queriam apenas melhorar o curso ou ampliar a atividades culturais do campus”, afirma. “Virou uma arena que segrega os que dominam a linguagem e os rituais daqueles que não dominam. Penso que os estudantes vão reinventar a forma, porque é um espaço legítimo de reivindicação e de prática política, social e cultural”.