Ibiúna - No primeiro dia de julgamento pela morte da ex-namorada Sandra Florentino Gomide, 32 anos, o jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves, 69 anos, entrou ontem no fórum de Ibiúna (64 quilômetros de SP) sob gritos de assassino e se recusou a falar sobre o crime ao juiz e aos sete jurados.
Questionado pelo juiz Diego Ferreira Mendes, de Ibiúna, se queria se defender da denúncia de homicídio duplamente qualificado (motivo torpe e recurso que impossibilitou defesa da vítima), Pimenta Neves, ex-diretor de redação do jornal “O Estado de S.Paulo”, disse que preferia “não se manifestar”. O jornalista é réu confesso do assassinato da ex-namorada.
O crime ocorreu em 20 de agosto de 2000, em um haras em Ibiúna. O júri popular, iniciado às 9h21 de ontem, após várias tentativas de adiamento feitas pela defesa, estava em andamento até as 19h de ontem.
Dezenas de moradores se concentraram diante do fórum durante o dia. Algumas pessoas gritaram assassino quando Pimenta Neves chegou ao local, às 8h05. A previsão é que o resultado do julgamento seja conhecido hoje. Pimenta Neves tem o direito constitucional de não se manifestar mesmo na Justiça.
Para o Ministério Público em Ibiúna, no entanto, a decisão reforça a tese da acusação. “Quem cala é porque aceita o que já está demonstrado nos autos, que mostram que o ocorrido foi um assassinato brutal”, afirmou Sergei Cobra Arbex, assistente da Promotoria. Essa foi a segunda vez que Pimenta Neves se recusou a falar sobre o crime à Justiça.
Em 2000, durante a fase inicial do processo criminal, ele afirmou que estava “confuso” e não tinha condições de falar durante uma audiência. O depoimento mais longo de Pimenta Neves foi dado à polícia paulista, também em 2000, quando ele afirmou que foi traído “pessoalmente e profissionalmente” pela ex-namorada. A defesa do jornalista alega que ele agiu sob forte emoção e não premeditou o assassinato.
Pena
Pimenta Neves pode ser condenado a uma pena entre 12 e 30 anos, segundo o Ministério Público. Mas, caso ele seja condenado, sua defesa deve recorrer. Anteontem, um dia antes do começo do júri, o Tribunal de Justiça negou o pedido antecipado da defesa de que, mesmo condenado, Pimenta Neves não seja preso e que recorra em liberdade. Dos sete jurados escolhidos para o júri popular, quatro são mulheres.
A primeira pessoa a ser sorteada não pôde participar do júri porque era cunhada do oficial de Justiça do fórum de Ibiúna. Além dela, outras cinco pessoas foram recusadas para compor o corpo de jurados. Dessas, quatro eram mulheres e foram rejeitadas pela defesa do jornalista. O homem foi recusado pela acusação.
No início do julgamento, a defesa de Pimenta Neves voltou a apontar ontem a nulidade do processo. De acordo com a advogada Ilana Müller, houve cerceamento da defesa. Ela solicitou que fosse ouvida uma testemunha, Washington Novaes, que mora nos Estados Unidos. Também cobrou do juiz de Ibiúna pedidos, não concedidos, de acesso ao processo criminal.
O juiz de Ibiúna voltou a negar o pedido de adiamento do júri. “Se os autos não estavam à disposição, foi justamente por causa dos pedidos da defesa”, afirmou Mendes. Segundo o Ministério Público, a negativa aos pedidos da defesa mostra que os pedidos eram apenas protelatórios. Müller afirmou ontem que não falaria com a imprensa sobre o caso.