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Ovos no mesmo cesto


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Dona Benedita, nos idos do século passado, quando não havia granjas, percorria os sítios comprando ovos e francos para revendê-los no distrito de Aparecida, em São Manuel. Os ovos ela carregava numa cesta sobre a cabeça, calçada por uma rodilha. Os frangos e galinhas, amarrados pelas pernas, levava pendurados nos braços. Muito conhecida dos sitiantes, sempre ouvia deles a observação: - cuidado dona Benedita, se a senhora tropeçar a cesta cai e a senhora fica sem os ovos. Ao que ela sorria respondendo que não tinha perigo, que nunca caiu.

Se no final de sua coleta dona Benedita tropeçasse, derrubando a cesta, perderia todos os ovos, o que, para ela, que dependia disso, seria um grande prejuízo. Como dona Benedita, todos os sitiantes que ela visitava também dependiam de uma única fonte de renda, o café. Milho, criação de gado, de porcos e galinhas eram para o consumo da família e a sobra, para não desperdiçar, vendiam à dona Benedita. Em 1942, uma forte geada queimou todos os cafezais, deixando os sitiantes em grande dificuldade, pois naquela época a formação de nova lavoura levava, no mínimo, quatro anos para colheita. Enquanto renovavam suas lavouras tiveram que se valer da diversificação com milho, mamona e cereais, para não passarem fome. Anos depois voltaram a viver só do café e agora só da cana de açúcar.

Essa historieta, com aparência de simplória, é verídica e não somente relembra o provérbio de que “não se deve colocar todos os ovos no mesmo cesto”, como nos remete a exemplos de maior significação, como é o caso atual da dependência do Brasil do gás da Bolívia. O Brasil se portou como a dona Benedita, que tinha certeza de nunca cair, e jogou todas as fichas no gás boliviano. O tropeção veio com a vitória de Evo Morales e os ovos poderão não se quebrar mas com certeza ficarão mais caros, quer dizer, o gás ficará mais caro.

Dias atrás ouvimos de um empresário que ele só entrava num negócio se soubesse primeiro como sair. E o Brasil não tem nenhuma saída, a curto prazo, porque não há nenhuma alternativa para substituição do gás boliviano, em pouco tempo. Também para a Bolívia o risco é grande. O embaixador Rubens Ricúpero comparou-o a um tiro no pé, porque vai ser mais difícil para a Bolívia encontrar um comprador que substitua o Brasil do que nós encontrarmos um substituto para o gás boliviano, embora leve algum tempo. Mas com certeza o Brasil já deve estar procurando outros cestos para dividir os ovos.

Municípios que vivem da monocultura -café, cana, laranja, soja etc., ou que ficam na dependência de grandes empresas ou de um setor especializado da economia - setor calçadista, turismo etc. ficam reféns dessas atividades. Crescem e se desenvolvem em torno delas e, quando menos se espera, são afetados pelas crises que elas têm. A Volkswagen está para fechar uma de suas fábricas no Brasil e as cidades com fábricas da Volks já estão preocupadas porque serão alguns milhares de empregos perdidos. As usinas de açúcar e álcool estão se multiplicando mas a mecanização do corte da cana está reduzindo os empregos. Crises na Argentina e invasão de produtos chineses afetam os setores de calçados e confecções e as cidades especializadas nesses setores sofrem as conseqüências.

Esse negócio de dizer que uma cidade é a capital disso ou daquilo é um ufanismo que pode terminar em choro. Para o país como para os municípios e para as empresas o melhor é não ficar na dependência de um único fornecedor ou de um único comprador. A estratégia é aplicar o que diz a sabedoria popular por este simples mas infalível provérbio: não coloque todos os ovos no mesmo cesto.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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