Brasília - Mais deputados, além dos 16 anunciados ontem, poderão ser alvo de investigação da comissão de sindicância da Corregedoria da Câmara dos Deputados por envolvimento na fraude da venda de ambulâncias para prefeituras, afirmaram ontem o corregedor, Ciro Nogueira (PP-PI), e o relator da comissão Robson Tuma (PFL-SP).
Após a primeira reunião da comissão, o corregedor declarou que, com a divulgação da lista de 81 nomes de supostos envolvidos resultante do depoimento da ex-assessora do Ministério da Saúde Maria da Penha Lino - presa por envolvimento no esquema- à Polícia Federal (PF), novos nomes podem ser incluídos na investigação da sindicância.
"Obviamente, alguns dos nomes podem sair e outros aparecer; o trabalho será feito com muita cautela para evitar que culpados sejam inocentados, e inocentes, culpados", disse Tuma. Ciro Nogueira também fez críticas à PF que teria agido de forma "irresponsável".
"A PF cometeu uma ilegalidade ao mostrar fotos de deputados para a servidora. Isso é investigação de parlamentares, o que foge de suas atribuições". Ele defendeu medidas da Câmara contra o delegado Tardelli Boaventura.
Depoimentos
Ontem, a comissão de sindicância definiu 26 pessoas, 16 das quais parlamentares, que quer ouvir antes de chegar às suas conclusões. A primeira da lista é Maria da Penha Lino, que deverá ser solta nos próximos dias em troca da "delação premiada", segundo expectativa da Corregedoria.
É provável que parte dos 26 elencados pela comissão não preste depoimento. A Corregedoria, ao contrário das CPIs, da Polícia Federal e do Ministério Público, não tem poder de convocar ninguém -apenas convidar.
O plano da comissão é começar com os não-parlamentares: autoridades que investigam o caso e pessoas acusadas de integrar o esquema. Darci Vedoin, sócio da Planam -empresa que comandaria as fraudes- bem como sua mulher e o filho Luiz Antônio Vedoin estão entre os 26 listados.
"A Polícia Federal está há dois anos nesse caso, tem muito a nos contar", afirmou Nogueira, que ontem não escondeu a irritação com a PF por ter vazado uma lista com 81 nomes sem que fosse feita uma triagem prévia.
A triagem, segundo ele, será uma das tarefas da Corregedoria. Anteontem, antes de vir à tona o depoimento de Lino, Nogueira havia anunciado que seriam investigados 16 deputados que teriam recebido dinheiro do esquema. Outros 9 ficaram em uma lista intermediária, por terem assessores supostamente envolvidos. E 36 foram liberados de cara, por não haver, segundo a Corregedoria, indícios consistentes. Desses, porém, 16 foram incluídos na lista de Maria da Penha Lino.
"Primeiro vamos convidar as pessoas que estão investigando o caso, para entendermos o contexto em que elas aconteceram e, posteriormente, ouviremos os deputados", declarou Tuma.
O relator disse que tem o prazo de 30 dias, prorrogáveis por igual período. Na semana que vem, pedirá à PF e à Justiça as gravações em que são citados nomes de parlamentares e toda a documentação que consta dos autos. Ontem, Nogueira já recebeu da PF a íntegra do depoimento da servidora.
CPI
Paralelamente, deputados de partidos de oposição começaram anteontem a recolher assinaturas para a instalação de uma CPI da Operação Sanguessuga, que investigaria o novo escândalo. A comissão seria mista (formada por deputados e senadores) e está sendo proposta por parlamentares de PPS, PV e Psol, que não têm deputados investigados até o momento dentro da Operação Sanguessuga.
O mínimo de assinaturas necessário para viabilizá-la é 171 na Câmara e 27 no Senado. Até o final da tarde de ontem, haviam sido recolhidas 51 de deputados e 12 de senadores, segundo o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), um dos responsáveis pela coleta.
"Na semana que vem conseguiremos as assinaturas. Tem muita gente telefonando, dizendo que quer assinar porque essa CPI é um ato de resistência do Congresso Nacional", afirmou Jungmann.