A vida que não conseguimos segurar tem uma característica: ela passa levando tudo para a cinza da indiferença e do esquecimento. Dores e flores, amarguras e amores. Todo mundo - patrões, presidentes, papas, reis, celebridades, artistas, imperadores, caudilhos, poderosos e quem pensa que é importante – morre, e é inexoravelmente esquecido. Um negócio chamado História procura com vão desespero imortalizar algumas figuras e coisas. Mas o desenrolar da vida, com seus fatos inusitados e inefáveis contradições, vai apagando e redefinindo pessoas e eventos. De tal maneira que até mesmo “imortais” como Napoleão, acabam virando conhaque ou um misterioso código popularizado num best-seller, como aconteceu com Leonardo da Vinci. A questão do futuro não é bem como ser muito lembrado, mas como ser menos esquecido. O ideal (penso) seria um esquecimento gradual, capaz de transformar o fantasma errante em ancestral amoroso. É o que acontece com a figura da mãe, cuja memória é resgatada num dia criado pelo comércio e impulsionado pelos meios de comunicação para aumentar as vendas. Quem tem mãe se vê na obrigação de presenteá-la. Àqueles que têm a mãe no céu resta a oportunidade de recordá-la ou homenageá-la com flores em sua última morada.
No ocaso da vida, sei lá por quais desvios entre neurônios minha mãe queria que eu fosse rei. Não deixava por menos. Conde, visconde, barão... Nenhum desses títulos nobiliárquicos a satisfazia. Eu tinha que ser rei. Nem adiantava explicar que vivemos num país republicano, sem reinado e sem coroa. De tanto ler, minha mãe ingressou na senectude sob o esplendor da Renascença, no século XVI. Essa “demência senil”, como dizia o médico, reservou para si a mesma sorte da Catarina de Médici que, durante 30 anos, lutou para que seus filhos fossem reis. Esposa de Henrique II, da França, após enviuvar-se conseguiu colocar no trono o filho Francisco II, um adolescente neurótico que morreu repentinamente, quase interdito. Com sua personalidade política e cultural, Catarina impôs o outro filho, coroado Carlos IX, que reinaria por quatorze anos. Aí foi a vez de Henrique III, o descendente preferido de Catarina. Esse Henrique III era o mais dotado e culto apesar das suas muitas veleidades, como a de ser um escandaloso bissexual.
Minha mãe ignorava esses detalhes históricos, mas queria um filho rei, já que aquela rainha teve três. Consegui demovê-la da sua pretensão quando contei sobre as matanças promovidas pela família Médici e que culminaram no famoso massacre da “Noite de São Bartolomeu”, de 23 para 24 de agosto de 1572. Foram trucidados centenas de protestantes, em Paris. Um horror, justamente durante o casamento da filha Margot com Henrique de Bourbon, futuro Henrique IV, da França. Achava lindo esse delírio da minha mãe, velhinha, com seu imaginário impregnado por criaturas que só são lembradas nos livros de história. Mais pela crueldade. Analiso hoje e concluo que a minha mãe estava mais para Jocasta, a personagem de “Édipo, rei”, peça teatral que Sófocles escreveu há 2.400 anos. Eu e meus irmãos nos cotizamos para dar a ela uma TV em cores. Com que prazer assistia às telenovelas. Orgulhosa do seu novo aparato tecnológico fazia questão de segurar na minha mão durante todo o programa. Justo eu que detesto o conteúdo repetitivo das histórias da dramaturgia da TV. Acabava me rendendo a esse gesto de amor e carinho e até gostando da qualidade plástica das imagens e de interpretação de alguns artistas. Nas noites de frio, me aguça as papilas gustativas a lembrança do prato de caldo verde, fumegante, com aquelas duas rodelas de paio boiando entre a couve cortada bem fininha. O fio de azeite extra-virgem, bem visível pela generosidade da dose, dava o acabamento à obra-prima. Nem em Lisboa, nos restaurantes da Rua de Santo Antão encontrei um caldo verde que batesse o da minha mãe. Aí, sim, meus complexos edipianos afloravam do inconsciente. Agora sou cativo da minha mulher, que é até melhor na cozinha, em qualquer especialidade.
Para essas evocações é que servem o “Dia das Mães”, muito mais do que uma herética oportunidade de consumo. Minha mãe entrou num processo de esclerose continuo até não reconhecer mais os filhos. Assim mesmo, permanecia sentada na poltrona com um livro ou revista na mão. Impossível que pudesse ler alguma coisa. Foi apagando, apagando... Assim também gostaria de morrer. Sem aquelas coisas dolorosas. Como a chama de um pavio que se extingue naturalmente e não deixa saudades. Só uma fumacinha, que logo se esgarça no ar.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC