Brasília - Sob ameaça de contestação na Justiça, o PMDB realizou ontem uma convenção nacional extraordinária para oficializar a decisão de não ter candidato próprio a presidente da República em outubro. Aliados de Anthony Garotinho, pré-candidato da sigla ao Palácio do Planalto, comemoravam de manhã uma medida liminar (decisão judicial provisória) que anulava provisoriamente os resultados do encontro. Como a liminar não impediu a realização da convenção, seus efeitos eram limitados.
“O principal é que a decisão política será tomada e o PMDB não terá candidato a presidente”, disse o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).
Os governistas conseguiram uma vitória apertada. Foram 351 votos contra a candidatura, 303 a favor, um nulo e dois em branco. No total foram 657 votos. A pequena diferença (48 votos) fez com que os oposicionistas deixassem o encontro confiantes de que o PMDB terá candidato próprio.
Renan, um dos principais defensores da não-candidatura do PMDB, chegou a ironizar a insistência do ex-governador do Rio para ser candidato a presidente: “Garotinho que não come não cresce”. Garotinho fez greve de fome, protestando por se considerar perseguido pela imprensa.
O ex-governador do Rio de Janeiro falou por cerca de meia hora, num discurso cheio de críticas à parte do PMDB que é contra a candidatura. “Não posso admitir que o presidente do Senado, hoje presidente da República, diga que uma decisão de um desembargador não vale nada”, afirmou. E concluiu: “O que não vale nada são as pessoas que querem destruir o PMDB”.
O outro pré-candidato, Itamar Franco começou a discursar logo depois de Garotinho, às 12h20. “Não é possível que esse partido seja submisso, coadjuvante, em benefício daqueles que só visam os seus ideais”, disse.
“É importante registrar que não há uma posição contra a candidatura própria, mas a favor do fortalecimento da sigla nos Estados. É por essa razão que a maioria votará para não haver candidato a presidente”, disse Renan.
“Vou votar para não ter candidatura própria porque não acredito que o PMDB tenha candidato para valer, assim como o partido também não tem um projeto nacional”, disse o deputado Saraiva Felipe, ex-ministro da Saúde.
O grande defensor de Garotinho era o deputado Eduardo Cunha (RJ), que usou metáforas futebolísticas. “Não ter candidato é como o time de futebol que não joga. Time que não joga não tem torcida. Aqui é igual a Libertadores da América. Hoje é só o primeiro jogo. O jogo de volta, o jogo final, será a convenção de junho”.
Apesar de Renan ter proibido a entrada de militantes no Senado, houve um início de confronto físico. Cerca de 20 apoiadores de Garotinho gritaram palavras de ordem contra o ex-governador de Pernambuco Jarbas Vasconcelos. Os aliados de Garotinho chamaram Jarbas de “traidor”, “Judas” e “bêbado” - o pernambucano defendia a candidatura própria, mas trocou de lado.
Diante das ofensas, cerca de 15 adeptos de Jarbas empurraram os militantes do Rio. Houve gritaria e palavrões. Jarbas, irritado, respondeu: “Mandei votar logo para acabar com essa palhaçada. Isso é coisa de claque desqualificada. Já basta a presença dele, Garotinho, incômoda, dentro do partido. Os 23 delegados de Pernambuco votarão de maneira unânime para que o partido não tenha candidato próprio”.