Barra Bonita - Os 60 presos da Cadeia Pública de Barra Bonita (68 quilômetros de Bauru) se rebelaram ontem, por volta das 10h40, fazendo um carcereiro refém durante quase três horas. A rebelião foi encerrada por volta das 13h30, após tensa negociação entre amotinados e o juiz corregedor da 2.ª Vara Criminal de Barra Bonita, Marcos Vinícius Bachiega. O carcereiro Valdir Pierazzo, 34 anos, foi libertado sem nenhum ferimento, continuando suas atividades na cadeia.
Aproveitando para marcar posição na onda de violência dos últimos quatro dias em São Paulo, Mato Grosso e Paraná, os 60 detentos de Barra Bonita, coincidentemente, iniciaram a rebelião momentos após o fim da tentativa de rebelião contida pelas polícias Civil e Militar em Igaraçu do Tietê, município vizinho. O delegado Seccional de Jaú, Antonio Carlos Piccino Filho, evitou um pronunciamento mais incisivo no sentido de relacionar os atos de violência dos presos das duas cidades com a onda de crimes, iniciada na última sexta-feira, atribuída ao Primeiro Comando da Capital (PCC). “Existe uma manifestação em todo o Estado de São Paulo e que atingiu outros Estados da federação. Parece que isso aí já está chegando à fase final”, analisou Piccino.
A rebelião começou na hora da saída dos presos para o banho de sol. Na abertura das celas, o carcereiro Valdir Pierazzo foi rendido pelos detentos, que não estavam armados e levaram o refém para o fundo da cadeia.
Imediatamente, o efetivo policial que estava em Igaraçu do Tietê se dirigiu para Barra Bonita. Policiais Civis e Militares de Jaú reforçaram o policiamento nas imediações do prédio, que já estava com as ruas interditadas.
Negociação tensa
O delegado titular de Barra Bonita, Claudemir Ferracini, e Piccino tentaram iniciar as negociações. Porém os presos só aceitaram negociar com o juiz corregedor. Às 11h34, os detentos atearam fogo a um cochão, no momento de maior tensão da rebelião. Nesse instante, policiais civis de guarda do lado externo do prédio temiam que algum preso fosse morto. O fogo foi contido antes da chegada do caminhão-pipa do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Barra.
Por volta das 11h45, o juiz Marcos Vinícius Bachiega chegou e iniciou as negociações para libertar o carcereiro e pôr fim ao motim. Os presos resolveram endurecer as conversações impondo mais exigências. Queriam que a imprensa presenciasse as conversas. Os rebelados reivindicaram maior agilidade no andamento de seus processos judiciais.
O juiz corregedor da 2.ª Vara prometeu se empenhar, mas ressaltou que havia o problema da tramitação de processos se dar em diferentes comarcas da região. Eles ainda solicitaram aumento do período de banho de sol, ampliação do horário de visitas e pediram para que não houvesse retaliação depois das reivindicações.
Bachiega garantiu que nada iria acontecer aos presos. Nesse momento, além do juiz da 2.ª Vara, estava na carceragem o juiz corregedor da 1.ª Vara, Daniel Serpentino, e os promotores Marcelo Sperandio Felipe e Luiz Fernando Violi. Por volta das 12h37, dois presos algemados se reuniram com os juízes e promotores para ratificar o acordo. Às 12h55, os representantes dos detentos voltaram para o fundo da cadeia para conversar com os amotinados.
Liberdade
Algum tempo depois, Valdir Pierazzo foi liberado. Ele trabalha há quatro meses na Cadeia da Barra e é policial civil há 11 anos. Ele garantiu que não sofreu nenhuma violência física. “O problema é que você é rendido e me senti pressionado por eles, que eram maioria. Quanto mais passivo nós policias ficamos mais fácil é suportar a situação”, esclareceu.
O delegado Seccional de Jaú, Antonio Carlos Piccino Filho, explicou que as reivindicações serão analisadas e, se possível, concedidas, como ampliação do tempo de banho de sol e visitas. Segundo o seccional de Jaú, as solicitações que dependerem de autorização de instâncias superiores - Secretarias da Administração Penitenciária e de Segurança Pública - serão encaminhadas. “Tudo aquilo que for possível e legal será atendido”, salientou.
Conforme Piccino, aparentemente não havia sinais de depredação na cadeia. “Os presos tiveram bom senso para atender às exigências da polícia.”
O delegado Claudemir Ferracini explicou que a carceragem tem capacidade para 48 pressos, porém está abrigando 60 - 12 a mais do que a lotação. Atualmente, 98% dos detentos de Barra Bonita são de Jaú e cidades vizinhas. Ele lembrou que, na rebelião do ano passado, - 22 de março - a cadeia foi esvaziada com todos os presos sendo transferidos. Segundo Ferracini, as reivindicações dos detentos podem ser atendidas desde que não comprometam a segurança.
Com a volta da normalidade na cadeia foi servido o almoço aos presos. Pierazzo ficou encarregado da distribuição dos alimentos. Ontem, eles comeram arroz, feijão, bife, berinjela recheada com carne moída e acelga. Para beber foi servido suco de laranja e paçoca como sobremesa.