Internacional

Washington restabelece laços com a Líbia 27 anos após tensas relações

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Washington - Os EUA anunciaram ontem que vão restabelecer totalmente os laços diplomáticos com a Líbia, no que aparenta ser um sinal para que outros países vistos como ameaça pelos EUA - casos do Irã e da Coréia do Norte - sigam os passos do regime comandado por Muammar Gaddafi e abram mão de seus supostos programas de armas de destruição em massa.

Washington mantinha relações tensas com a Líbia desde que sua embaixada em Trípoli foi atacada e incendiada, em 1979. O regime também foi retirado da lista de Estados que patrocinam o terrorismo mantida pelo Departamento de Estado americano.

“Tomamos essas medidas em reconhecimento ao compromisso perene da Líbia com a renúncia ao terrorismo”, declarou a Secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, em um comunicado no qual classifica a colaboração líbia com a guerra ao terrorismo como “excelente”.

Deixando entrever o objetivo de Washington, Rice citou a Líbia como “modelo importante diante da pressão da comunidade internacional por mudanças no comportamento dos regimes do Irã e da Coréia do Norte”.

O chanceler líbio, Abdurrahman Shalgham, afirmou que o anúncio não surpreendeu o país e enfatizou a existência de interesses políticos compartilhados entre Trípoli e Washington. “Em política, não há ‘recompensa’ e sim interesses”, declarou. “O anúncio resulta de contatos e negociações. Não é unilateral. É resultado de interesses mútuos, acordos e entendimentos.”

A Líbia é um país rico em petróleo - produz cerca de 1,6 milhão de barris diários e está entre os dez maiores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Retomar o comércio com o país ofereceria aos EUA uma alternativa para a importação de petróleo em um momento em que suas relações com outros grandes produtores, como o Irã e a Venezuela, estão abaladas e em que a situação no Iraque é extremamente instável.

Relações conturbadas

O anúncio de ontem coroa um processo iniciado em dezembro de 2003, quando Gaddafi surpreendeu ao concordar em desativar seu programa de armas de destruição em massa, revelando a existência de mísseis e projetos nucleares.

A contrapartida, no ano seguinte, foi o fim de um embargo comercial imposto pelos EUA em 1986. “Como resultado direto dessas decisões, assistimos ao início da re-emergência do país ao seio da comunidade internacional. O dia de ontem marca uma nova era nas relações entre os EUA e a Líbia, que beneficiará tanto líbios quanto americanos”, disse Rice.

Os laços entre os dois países têm um histórico turbulento. Além do ataque à embaixada em 1979, a Líbia foi considerada responsável pelo atentado contra o vôo 103 da Pan Am que explodiu em 1988 sobre a cidade escocesa de Lockerbie, matando 270 pessoas, sobretudo americanos.

Trípoli também é constantemente citada entre os regimes que não respeitam os direitos humanos, e Gaddafi já chegou a seu conhecido nos EUA como o homem mais perigoso do Oriente Médio. Em 1981, o então presidente Ronald Reagan ordenou ataques ao país. Em 1986, voltou a fazê-lo em reação à suspeita de que o regime teria patrocinado um atentado terrorista contra uma danceteria em Berlim freqüentada por militares dos EUA que culminou na morte de dois americanos.

A decisão de retirar Trípoli da lista de governos que os EUA vêem como patrocinadores do terrorismo levará 45 dias, contados a partir de hoje, pra entrar em vigor. E, como primeiro passo para o restabelecimento dos laços, a embaixada americana no país será reaberta. Um porta-voz da oposição líbia fora do país referiu-se à decisão americana como “infeliz”. “Isso não ajuda o povo líbio, que espera assistência internacional para obter direitos humanos”, disse Fayez Jitheir, do Congresso Nacional Líbio.

“Gaddafi certamente usará isso para fechar o cerco sobre os líbios que aspiram a coisas tão simples como a liberdade de expressão ou de ter uma Constituição”, disse Jibril, que vive no Egito.

Comentários

Comentários