Nacional

Homens-bomba chegam às locadoras

Por Inácio Araujo | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Antes de ver o documentário “Paradise Now” é possível esperar por fanáticos que, agindo em nome de Deus, dispõem-se a transformar seus corpos em bombas humanas para atingir Israel, tendo o sacrifício de suas vidas compensado pela entrada em via reta de um lugar no Paraíso. Fosse isso, “Paradise Now”, que chega às locadoras, apenas estaria reiterando a imagem que a mídia criou sobre os homens-bomba. O diretor Hany Abu-Assad evita meticulosamente essa idéia e coloca a saga do terrorismo palestino (ou resistência, se se prefere), deslocando-a para o campo a que efetivamente pertence, o da política.

Said e Khaled são dois jovens de Nablus com vida normal - ou tão normal quanto possível num local ocupado. Trabalham numa mecânica, podem perder o emprego por desacatar um cliente chato ou se interessar por uma garota. No entanto, são convocados para realizar um ato suicida em Tel Aviv. A mídia então se manifesta. Vemos Khaled em traje típico, metralhadora na mão, proferindo, para efeito de gravação em vídeo, um violento discurso anti-Israel. Não há guerra santa sem TV. E não há TV sem lugares-comuns: o terrorista amedrontador proferindo seu discurso.

Aqui as coisas começam a se tornar mais interessantes, pois temos de um lado dois jovens comuns - nada a ver com a imagem de fanáticos religiosos divulgada no Ocidente - convocados a praticar um ato terrorista. E de outro a imagem de fanáticos produzida pelos próprios palestinos. A imagem substitui a vida real. Depois entra em cena o cinema propriamente dito, isto é: o diretor Abu-Assad empenha-se, com seu filme, em mostrar a questão política suposta nos atos terroristas mas também a questão existencial.

A julgar por “Paradise Now”, a idéia de que o cara explode e vai para o Paraíso não é toda essa unanimidade que se difunde. Esses são os dados iniciais lançados: trata-se de discutir com um mínimo de seriedade a questão dos homens-bomba, deixando de lado uma mitologia que, em vez de ajudar a entender o que se passa no Oriente Médio, não faz senão embotar nossas mentes. Nesse sentido, o filme é uma das primeiras manifestações de uma, digamos, linguagem palestina, isto é, da produção de imagens em que se manifesta um modo de ser próprio da Palestina - não mais no exílio.

Abu-Assad procura manter o equilíbrio entre as diversas visões - desde Israel até os radicais palestinos -, sem demonizar nenhuma delas, sem exaltá-las também. Ou seja, esse diálogo que um Amos Gitaï propõe do lado israelense, Abu-Assad desenvolve do lado palestino - com menos desenvoltura, é certo, mas com a honestidade necessária para observar os israelenses antes de tudo como seres humanos. É também em sua humanidade que somos chamados a ver os palestinos implicados nessas operações. E por humanidade entenda-se, entre outras coisas, nossa falível capacidade de compreender os acontecimentos. É essa imensa fragilidade que mais chama a atenção em “Paradise Now”. Ou, pelo menos, tanto quanto as ruas em ruínas de uma cidade em que, a cada passo, somos chamados a perceber os efeitos de uma guerra que parece sem fim - e de cuja insensatez “Paradise Now” cria um retrato mais que aceitável.

Comentários

Comentários