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Nem que a vaca tussa...


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O grande problema do agronegócio brasileiro não está na agricultura... não depende da política agrícola... não tem nada a ver com a disposição ou a capacidade do produtor rural de tocar o seu negócio. Ele é o fruto da insensata política monetária dos últimos 24 meses que usou, oportunisticamente, a taxa de câmbio como instrumento da política antinflacionária.

O problema é a sobrevalorização do Real permitida por essa política que deprecia o valor da produção agrícola e desestrutura o setor exportador. O Brasil tem hoje a moeda mais valorizada do mundo, o que não traz nenhum benefício para o setor produtivo nacional. Ela faz a felicidade dos especuladores nos mercados financeiros que vivem da arbitragem da diferença das taxas de juro interna e externa.

Ainda teremos este ano uma safra um pouco maior do que a de 2004/2005 mas, por conta da excessiva valorização do Real, os agricultores acumulam dois anos sucessivos de queda no valor bruto da produção e de aumento do endividamento. As recentes medidas do governo para permitir a renegociação das dívidas dos produtores rurais dão alguma sobrevida aos negócios mas não resolvem o comprometimento dos patrimônios. Elas são mais importantes pelo que revelam do empenho do Ministério da Agricultura em ajudar do que pelo alívio que dão. Não é por outra razão que o competente ministro Roberto Rodrigues, homem do ramo e conhecedor profundo dos problemas do setor, anuncia que vai jogar a toalha, descrente da possibilidade de convencer seu próprio governo de fazer mudanças na política monetária. Num desabafo bem ao estilo do homem do campo afirmou que “nem que a vaca tussa me pegam num outro mandato...”

A realidade é que ninguém pode tirar a razão dos produtores rurais que protestam em todo o interior contra a política de valorização cambial que além de atingir as exportações de grãos e reduzir a renda do agronegócio, já inviabiliza exportações de amplos setores fabris, ameaçando inclusive o poderoso segmento da indústria automobilística. Com problemas graves na agricultura, o crescimento econômico e o emprego passam a depender ainda mais do comportamento do setor industrial, cuja expansão depende por sua vez do dinamismo das exportações. Uma boa parte (mais de 70%) das variações do nível de crescimento industrial é explicada pela variação da produção automotiva, por suas vendas no mercado interno e pelas exportações do setor. Uma redução da atividade no setor, comprometerá o crescimento esperado de 4% do PIB em 2006 e recuperação da taxa de emprego.

O Brasil sofreu em diversas oportunidades nos últimos 20 anos as conseqüências da utilização da taxa de câmbio como instrumento de política antinflacionária, ancorada em políticas monetárias insensatas como a que vimos praticando há 24 meses. As dificuldades na agricultura já reduzem a perspectiva de um crescimento econômico robusto este ano. Se o governo permitir, ainda, a desarticulação do setor exportador, a economia vai pagar muito caro por isso. E o presidente Lula vai pagar em dobro, se for reeleito...

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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