Difícil definir a essência do Cirque du Soleil — em português, Circo do Sol. A companhia canadense possui linguagem única, que mescla harmoniosamente balé, música, humor, teatro, recursos tecnológicos e, claro, quase todos elementos do velho circo. Há trapézio, acrobacia, palhaços, malabaristas... Os polêmicos números com animais não têm vez. Somada ao rigor técnico do elenco, a fórmula transformou-se num fenômeno que nem mesmo o seu idealizador, o audacioso engolidor de fogo Guy Laliberté, ousou sonhar ao fundar a trupe em 1984. Daí, não ser exagero dizer que os artistas que desembarcam em São Paulo em 4 de agosto, para sua primeira turnê brasileira, integram a maior e mais espetacular companhia de arte performática do mundo.
Na bagagem, o Cirque du Soleil traz o espetáculo “Saltimbanco”. Em duas horas e meia, 51 artistas de várias nacionalidades, com idade entre 10 e 46 anos, conduzem os espectadores para um universo mágico em que as palavras são substituídas por música, gestos e muito bom humor. Feito borracha, corpos coloridos se contorcem e fazem surgir figuras de encher os olhos. Um clown — sem o tradicional nariz vermelho, que fique bem claro — seduz a platéia com suas caretas e onomatopéias engraçadas.
Outros artistas literalmente voam sob a tenda, trapezistas arriscam-se em números de tirar o fôlego, seres mascarados surgem num balé, ora doce, ora frenético... Surpresa após surpresa, o espetáculo transcorre como uma espécie de antídoto ao turbulento cotidiano. Na falta de um teatro que acomode a gigantesca produção, a companhia viaja com sua própria tenda. Com capacidade para um palco de 220 metros quadrados e 2,5 mil espectadores, ela será instalada num terreno próximo à Marginal Pinheiros, na Vila Olímpia.
Tamanha beleza e gigantismo custam muito. Os ingressos para a temporada paulistana saem entre R$ 50,00 (valor para estudante no setor mais econômico) e R$ 250,00 (preço da inteira no setor vip). Há ainda uma área mais cara, chamada de tapis rouge (em português, tapete vermelho). Quem se dispor a desembolsar R$ 400,00 (ou R$ 275,00 se for estudante), além da melhor visão do show, tem direito a outros mimos como um coquetel servido antes da apresentação, estacionamento gratuito, programa do espetáculo, um brinde que marca a turnê da companhia pelo Brasil e ainda terá a preferência na hora de comprar camisetas, bonés, DVDs, CDs e outros produtos com a grife do Cirque du Soleil.
Embora salgado, o preço está longe de assustar o respeitável público. A venda dos ingressos começou no início do mês e, a exemplo das outras cidades do mundo em que o Cirque du Soleil já aportou, causou uma verdadeira correria. Dos cerca 200 mil ingressos disponíveis — são oito sessões por semana, de terça a domingo — mais da metade já foi comercializada.
Trajetória bilionária
O Cirque du Soleil nasceu 22 anos atrás, da mesma maneira que qualquer outra trupe circense: nas ruas. Contava na época com 73 artistas mambembes que percorriam a América do Norte participando festivais. Para o mundo, o Soleil apareceu pela primeira vez na abertura das Olimpíadas de 1988, no Canadá, com uma combinação tão inacreditável de malabarismo e outros elementos cênicos que rendeu ao seu criador, o quebequense Guy Laliberté, o título de “O novo Salvador Dalí”.
A comparação com o pintor espanhol, mestre do surrealismo, tem fundamento. Desde então, não surgiu nenhuma outra companhia capaz de inovar mais que o Cirque Du Soleil. Hoje, a trupe canadense conta com 900 artistas (25 são brasileiros), além de outros 3,5 mil funcionários de mais de 40 nacionalidades e 25 idiomas diferentes. Na sede, em Montreal, maquiadores, figurinistas, tradutores, designers, coreógrafos, médicos, fisioterapeutas e professores, entre outros variados profissionais, fazem parte da indústria que produz os shows da trupe espalhados pelo mundo. Ao longo de sua trajetória, a companhia foi vista por mais de 50 milhões de pessoas, em 240 temporadas realizadas em noventa cidades.
Além do elenco que traz “Saltimbanco” ao Brasil, o Cirque du Soleil mantém outros doze espetáculos em cartaz no momento. “Corteo”, “Varekai”, “Quidam” e “Delirium” excursionam pela América do Norte. “Alegría” e “Dralion” estão na Europa. Na Disney, em Orlando, o “La Nouba” tem residente permanente. E Las Vegas, que mantém permanentes “Mystère”, “O”, “Kà” e “Zumanity”, será palco também, a partir de junho, de “Love”, baseado no universo musical dos Beatles.
Em todos, o apuro técnico do elenco se repete. Os artistas são selecionados em testes rigorosos promovidos em diversos países — uma das marcas registradas da companhia é a combinação de várias culturas — e treinam à exaustão. Talento, contudo, não basta. Com mão firme e a visão de um empresário, Laliberté exige pontualidade e muita, muita disciplina. Além disso, é extremamente centralizador: dirige a parte administrativa e também a artística, sem economizar esforços, tempo e dinheiro para fazer o melhor.
Cada espetáculo demora, em média, três anos para ficar pronto e consome vários milhões de dólares. O resultado se vê no palco e também nas cifras milionárias do negócio. Entre apresentações, participações televisivas e vendas de produtos, o Cirque Du Soleil fatura cerca de US$ 500 milhões por ano. Valor suficiente para fazer de Laliberté figurinha fácil nas famosas listas dos homens mais ricos do mundo divulgadas com freqüência por revistas americanas.
Serviço Cirque du Soleil (2500 lugares). Rua Chedid Jafet, s/nº, Vila Olímpia, São Paulo.
Temporada: 3 de agosto a 15 de outubro. Terça a sexta, 21h; sábado, 18h e 21h; domingo, 16h e 20h. Sessões extras nos 1, 7, 8, 14, 15 e 21 de setembro e 12 de outubro, às 17h.
Ingressos: R$ 100,00 (setor II) a R$ 250,00 (vip) ou R$ 400,00 (tapis rouge). Estudantes: R$ 50,00 (setor II) a R$ 125,00 (vip) ou R$ 275,00 (tapis rouge). Mais informações:
- Para grupos: (11) 6846-6232
- Para outras localidades: 0300-789-6846
O Cirque du Soleil em números
240 temporadas ao redor do mundo
90 cidades visitadas
900 artistas e 3.500 funcionários, de 40 nacionalidades e 25 idiomas diferentes
13 espetáculos em cartaz simultaneamente
200.000 ingressos na temporada em São Paulo
100 toneladas de equipamento na turnê
Tenda própria para 2.500 pessoas
8 sessões por semana
*Especial para o JC