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O pequeno burguês e a realidade


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Após o auge da tragédia que se abateu sobre são Paulo, o governador em exercício (porque não foi eleito, era vice) Cláudio Lembo deu uma entrevista ao Jornal Folha de S. Paulo que ficará na história. Veja o leitor alguns trechos saídos da brilhante cabeça de sua excelência: “É ridículo falar isso, mas o Brasil só acredita na camisa da seleção, que é símbolo de vitória. É um país que só conheceu derrotas. Derrotas sociais... Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações”. A bolsa da burguesia já é sangrada em 40% do PIB - Produto Interno Bruto. Parece o discurso de um membro de MST - Movimento dos Sem-Terra ou do PSol de Heloísa Helena. Fica ainda mais difícil acreditar no que foi dito por tais palavras terem saído da boca de um membro do PFL, o mesmo que abriga o grande coronel do nordeste, o senador Antonio Carlos Magalhães, para quem a definição, um tanto errônea de burguês (rico, classe dominante) cai como uma luva. Há mais de um sentido para a palavra burguês, como homem do povo, comerciante mediano, comodista, onde certamente o próprio governador, eu ou você nos encaixamos, caro leitor. O sentido de comodista pode ser aplicado a boa parte dos membros do Parlamento, eles são a verdadeira classe dominante, quem sabe Lulinha, com sua empresa de 15 milhões não seria um burguês? E Lula da Silva, em seu tapete voador, seria ou não legítimo burguês? Não contente com o rosário de impropriedades já dito, acrescentou: “que o problema de violência no Estado só será resolvido quando a” minoria branca” mudar sua mentalidade”. Somos autorizados a crer que a tal minoria branca são nossas autoridades, nossa Justiça emperrada e injusta; nosso congresso de sanguessugas, mensalões, deputadas dançarinas (a deputada-dançarina Ângela Guadagnin foi multada em R$1 milhão pelo Tribunal de Contas, bem feito!); nosso executivo inchado com 20 mil cargos de confiança, só para falar no executivo federal. Ridículo, patético; perdeu uma grande oportunidade de ficar calado. Quando a violência passa a ser uma ameaça real para todos, indistintamente, o Judiciário manda cortar o sinal de celulares nos presídios e senado vota em regime de urgência urgentíssima projetos de leis para endurecer com os criminosos. Toda esta solicitude, essa repentina rapidez e “eficiência” só evidenciam o quanto os três poderes têm sido omissos com a sociedade, só agindo quando sacudidos pela vergonha de ver a violência dos últimos dias estampada nas páginas de inúmeros jornais, mundo afora, e porque suas excelências se sentiram pessoalmente ameaçadas.

Entre os mais de 140 mortos, vários policiais e civis. Foi este o preço do descaso de nossas autoridades, certamente uma minoria branca, certamente burgueses, em maior ou menor grau; que agora tomam algumas providências, dão o assunto por encerrado e voltam a tratar de suas vidas e de seus pequenos interesses. Voltam a cuidar da vida, vestem a fantasia e se preparam para a próxima encenação: a CPI das Sanguessugas. Luzes, câmera, ação (O autor, Luiz Leitão, é articulista, e-mail: luizleitao@allsites.com.br)

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