Cultura

Navio Negreiro

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

O sofrimento dos negros escravizados transformou-se em poesia graças à sensibilidade de um dos maiores abolicionistas do País, o poeta Castro Alves. Os versos de sua obra “O Navio Negreiro” percorreram o mundo pelos livros e pelo teatro - nos palcos, fruto da adaptação do artista Vado, que há 35 anos - completados em outubro - transmite com paixão e técnica o legado de 400 anos de escravidão. O espetáculo poderá ser conferido quinta e sexta-feira no Teatro Edson Celulari.

Em cena, 16 personagens, todos vividos por Vado, relembram a trajetória dos negros trazidos da África para serem escravos no Brasil e a conseqüência da opressão até os dias de hoje. A peça tem início contando o medo de um jovem negro de declarar seu amor a uma mulher de outra raça.

O garoto pede ajuda ao avô, já falecido, que vem ao encontro do rapaz para contar toda a história dos negros por meio do poema de Castro Alves. “Após a experiência, o jovem vive os versos da poesia, desprende-se do complexo de ser negro e se liberta para falar sobre as belezas da vida!”, empolga-se Vado.

O espetáculo foi encenado pela última vez em Bauru, em 1999, no Teatro Veritas, mas Vado ressalta que o público verá uma encenação diferente. “Nenhuma apresentação é igual a outra. O texto se mantém, mas os diálogos e os personagens vão sofrendo alterações”, diz.

35 anos

Apresentada pela primeira vez em 1971, 100 anos após a morte de Castro Alves, a peça evoluiu de acordo com o amadurecimento do ator. “No começo, fazia duas ou três apresentações e já estava exausto. Foi preciso investir no meu condicionamento físico”, lembra.

Para isso, Vado mudou-se para os Estados Unidos, onde fez um curso de arte dramática na Broadway. Quando voltou, em 1974, transformou o espetáculo por completo. “Consegui acrescentar as correntes que, em princípio, me machucavam, e criei cerca de quatro personagens a mais”.

Mas o aprimoramento total só foi alcançado na década de 80, considerado pelo ator como o momento em que atingiu o amadurecimento no palco. “Nessa época, saiu o egoísmo e a vaidade. Aconselhado por Chico Xavier, tive um contato mais espiritualizado com Castro Alves e meu corpo ficou preparado para receber todo o sofrimento do meu povo”, diz, emocionado.

O resultado tem encantado públicos de diversas regiões do País e até mesmo do Exterior. Nesses 35 anos, foram mais de mil apresentações só no Estado de Paulo, fora as capitais do Brasil. O espetáculo também passou pela maioria dos países latinos, além de algumas nações da Europa.

“Apresento o espetáculo em inglês e espanhol, mas em alguns locais não o traduzo. A arte dramática tem uma força tão grande que, às vezes, não precisa se entender o texto, pois o olhar e a dor se encarregam disso”.

Para o artista, o sucesso se explica por três razões: a força da obra de Castro Alves, o sofrimento dos negros e o seu próprio trabalho. “Preparei-me fisicamente e mentalmente para ser fiel à força e à resistência física do negro mostradas na obra do poeta”, afirma.

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Ator Ferramenteiro

“Vim de família humilde, o único legado que me deixaram foi a educação”. Desta forma, Benedito Irivaldo de Souza, o Vado, começa a narrar sua trajetória, que culminou como um dos artistas mais respeitados do País.

Enfrentando adversidades, o jovem cursou engenharia mecânica e conseguiu um emprego como ferramenteiro em uma multinacional de Campinas, sua cidade natal. Funcionário tímido, foi indicado a um curso de teatro para desenvolver a fala em público.

Então, a surpresa. Em menos de seis meses de curso, o jovem inibido foi considerado o melhor ator do teatro amador do Estado de São Paulo. E assim começaram os convites para a televisão e o teatro, como a participação na primeira versão do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, interpretando o Tio Barnabé, e a performance aclamada pela crítica no musical “Hair”.

• Serviço

Apresentação do espetáculo “O Navio Negreiro”, na quinta e na sexta-feira, às 10h e às 20h, no Teatro Edson Celulari (Rubens Arruda, 3-33). Os ingressos estão sendo vendidos no colégio Preve Objetivo (rua Cussy Júnior, 4-55) por R$ 10,00 e R$ 4,00 (alunos da rede municipal e estadual de ensino e do próprio colégio). Mais informações: (14) 4009-8800.

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