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‘Soldado Anônimo’ mostra o vazio da guerra

Por Leila Suwwan | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

“Soldado Anônimo”, que acaba de chegar às locadoras, é um filme de guerra sem combate, sem herói definido e sem trama convencional. À primeira vista, parece uma proposta cansativa: jovens marines americanos sedentos de sangue, morrendo de tédio e se afogando em testosterona na areia quente do deserto em 1991, na Guerra do Golfo. A crítica norte-americana não recebeu bem a noção de um filme amorfo sobre a primeira guerra do Iraque enquanto Washington rebola para justificar a segunda.

Para o diretor, Sam Mendes (“Estrada para Perdição”, “Beleza Americana”), a proposta é mais complexa e a carga política do filme é propositadamente ambígua. “As pessoas podem ficar um pouco frustradas com um filme que trata tão deliberadamente sobre a futilidade e flerta com a noção de uma guerra, mas não cumpre essa expectativa. Há um perigo nisso, mas, para mim, é deleite”, provocou Mendes, às gargalhadas, em entrevista na véspera da estréia norte-americana.

“Soldado Anônimo”, baseado no best-seller de Anthony Swofford, “Jarhead”, conta a história do próprio autor, um garoto de 20 anos, interpretado por Jake Gyllenhaal (de “O Segredo de Brokeback Mountain”), que lê Albert Camus, mergulha num treinamento militar brutalizante e praticamente enlouquece à espera de uma guerra que, em solo, nunca acontece. Os passatempos? Limpeza de rifle, briga de escorpiões, masturbação, bebedeira e hip hop.

Hollywood começa a flertar com temas políticos, ainda que embalados para consumo em massa. No caso de “Soldado Anônimo”, a crítica só vai existir para quem focar o vazio do filme, o humor amargo e o surrealismo inquietante, marcas de Mendes. Um marine quer levar um cadáver iraquiano para casa como suvenir e mata camelos por diversão. Um jogo de futebol americano acaba em simulacro sexual para chocar uma jornalista. Difícil não lembrar do sadismo da prisão de Abu Ghraib. Há alusões a vacinas experimentais, ao perigo do fogo amigo, à censura nas entrevistas com a imprensa americana.

Provocações a uma irresponsabilidade do comando, à promiscuidade da imprensa? O fato é que os personagens não têm carisma e ninguém vai se comover com a aflição deles: “Não matei ninguém hoje”. Por que os americanos estão ali? É a questão que o filme levanta, enquanto expõe a perversidade e o despropósito da situação por vias tortas. “Existe uma pressão nos Estados Unidos para definir tudo, preto no branco, mas isso é confuso. A vida é cheia de áreas cinzentas, imagine uma guerra”, diz Mendes.

Com alusões explícitas a clássicos como “Apocalypse Now” (Francis Ford Coppola) e “Nascido para Matar” (Stanley Kubrick), “Soldado Anônimo” se coloca em posição de humildade para evitar comparações e brinca com a noção de que o público e os soldados só conhecem as guerras pela herança cinematográfica. Para Jamie Foxx, ignorância não é necessariamente o problema. “Você precisa deixar de lado o que aprendeu na faculdade. O povo perde muito tempo “ponderando’, bebendo “capuccino’“, ironiza. “Sou democrata, mas, com tanta sátira, ironia e piada, a gente fica meio dormente. Este filme é só entretenimento.”

Não é bem o que divulgam os escritores. O autor do livro passou dez anos refletindo antes de escrevê-lo e não esconde sua relutância entre a insensatez da guerra e o espírito de união dos marines. O roteirista, William Broyles Jr, é veterano de guerra e tem um filho no Iraque. Ele insiste numa aura ingênua dos soldados, que estão apenas cumprindo ordens e “procurando seu lugar na vida”. Seu livro é objetivamente cru e duro. Swofford diz que o escreveu por solidão e desespero, “um grito silencioso de um caixão”. Assume que foi à guerra voluntariamente, mas se envolveu numa “fucked up situation” (situação f...).

“Algumas guerras são inevitáveis e precisam ser lutadas, mas isso não elimina o desperdício da guerra. Desculpe-nos, devemos dizer às mães cujos filhos vão ter mortes terríveis. Isso nunca vai acabar. Desculpas”, escreve para concluir, agradecido por não ter matado.

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