Durante a campanha presidencial de 1989, o candidato do PDT, Leonel Brizola, reagiu a um discurso do candidato tucano, Mário Covas, em prol de um “choque de capitalismo” no Brasil. “Precisamos é de um choque de educação”, rebateu. Cinco eleições depois, o PDT quer na presidência outro engenheiro, Cristovam Buarque, igualmente apaixonado por educação. Ministro do governo Lula, o exgovernador do DF foi demitido por telefone, em janeiro de 2004. Meses depois, deixou o PT. Cristovam recebeu a reportagem no cafezinho do Senado. Adorou a idéia de discutir o Brasil dos próximos 25 anos. “Há muito tempo trabalho com o ano de 2022 como meta, por causa do bicentenário da independência”, contou. “ Não quero ser presidente só para gerenciar o curto prazo. Só me interessa se o eleitorado der um voto de confiança para o médio e longo prazo.” Numa perspectiva histórica, o pedetista faz propostas como “completar a abolição da escravidão” e “completar a proclamação da República”. Confira:
APJ - Em quantos anos o Brasil conseguirá “completar a Abolição e a Proclamação da República”?
CB - É uma tarefa para 20 anos. O tempo de uma geração crescer. E o caminho para completá-las é a educação. O Brasil cresceu economicamente muito durante a escravidão. Os Estados Unidos também. Numa República as pessoas têm a mesma chance, e o Brasil não dá igualdade de oportunidades. Vinte anos parecem muito, mas se levou quase isso para se fazer Itaipu. No caso da industrialização, Juscelino falava de 50 anos em 5, mas o Brasil levou 25 anos para se tornar uma nação industrial.
APJ - O senhor fala de erradicar o analfabetismo em cinco anos...
CB - Dá para fazer em quatro anos. Trabalho infantil, em dois anos. Digo 20 para completar tudo: 160 mil escolas em horário integral, com professores bem remunerados, escolas bem construídas e equipamentos de ponta.
APJ - Sob qual modelo? Cieps, CEUs? E de onde sairá essa verba?
CB - Não importa o modelo, mas sim o horário integral, com liberdade pedagógica. Deve haver três padrões mínimos: primeiro, para o salário e formação do professor. Hoje isso é municipal ou estadual. No Banco do Brasil, o salário é federal, o ar-condicionado, os móveis, há banheiro em todas as agências. Mas há 22 mil escolas que não têm banheiro, 27 mil que não têm luz. Em segundo lugar, padronizar edificações e equipamentos. Cada região deve construir de acordo com seu clima, seu terreno, com um mínimo de alunos por sala. Não pode ser teto de zinco e chão de areia, precisa ter quadronegro, computador, televisão. E, terceiro, padrão mínimo de conteúdo. Hoje tem município que não ensina a ler. A criança precisa chegar aos 8 anos lendo. Para isso, deve haver lei de responsabilidade educacional. Definem-se metas e os prefeitos têm que cumprir. Se não, ficam inelegíveis.
APJ - Hoje existe vinculação orçamentária e muita gente já reclama...
CB - A vinculação não tem nada a ver com esta proposta. O prefeito competente vai fazer de maneira barata - menos com o salário do professor. De onde ele vai tirar? Dos R$ 700 bilhões que a União tem. Ou então continuamos sem completar a Abolição, sem completar a República. Aqui tem que fazer uma opção: se queremos, tem que ter dinheiro. Países muito mais pobres que o Brasil fizeram isso.
APJ E de onde sairá o dinheiro?
CB - A gente só precisa de mais R$ 7 bilhões. Tira 1% de tudo: 1% do cafezinho do Senado, 1% do salário do senador. Vamos escolher os lugares. O governo arranjou R$ 4 bilhões para o Fundeb. Oito anos atrás, R$ 4 bilhões para o programa de redução da pobreza. É 1%, gente. Quando teve a crise energética a gente reduziu 20%. Qual pai não consegue tirar 1% do salário para dar uma boa escola ao filho? Se o Brasil fizer isso vai deixar de gastar muito mais. Hoje a repetência custa R$ 5 bilhões. A gente prefere gastar na repetência pelo imediatismo. Se me pedirem eu mostro 100 lugares no orçamento de onde tirar.
APJ - Quem fizer isso será reeleito?
CB - Não, porque vai levar 20 anos. Facilita mais a eleição distribuir dinheiro sem exigir nada de ninguém.
APJ - Como ter apoio no Congresso?
CB - Falando, sendo candidato a presidente, e despertando esse país, pois sem isso ele não vai controlar a criminalidade, a vergonha da desigualdade. Foi muito mais difícil convencer a abolir a escravidão - os donos dos escravos pagaram uma fortuna aos africanos. Por que uma princesa fez isso, 118 anos atrás, e agora a gente se pergunta onde vai buscar os R$ 7 bilhões?
APJ - O senhor se diz mais próximo de Joaquim Nabuco do que de Lênin...
CB - O mundo deu 100 passos adiante na ciência e tecnologia, 50 na produção, na economia. E uma porção de passos atrás na ética - a desigualdade é maior, a igualdade de oportunidades, menor. Do mesmo jeito que a África do Sul fez o apartheid por raça, o Brasilé exemplo de apartheid social. Somos campeões de repetência na escola, um dos últimos em educação básica.
APJ - E como ficam as emergências? O senhor mesmo considera o Brasil uma fábrica de violência, cujos produtos estão na rua, armados.
CB - Eu falei que precisa de 1% para a educação. Sobram 99% para as emergências. Segundo, é burrice pensar nas emergências, porque elas vão se agravar. No Brasil só se pensa na emergência. A violência não será resolvida pela educação, mas pela cadeia. Minha propostaé criar um ministério da Segurança Interna - não dá para deixar no Ministério da Justiça, que acaba ignorando a segurança. Está na hora de o presidente trazer para si a segurança.
APJ - Os governadores concordarão?
CB - Não estou propondo para eles. Está na hora de um candidato que não diga só o que as pesquisas de opinião dizem. Que fale como líder, com uma visão de médio e longo prazo, e corra o risco de perder. Proponho uma coordenação geral das PMs. O policial não vai para a rua correr risco de vida por um salário-mínimo. E tem polícia em que o coronel ganha R$ 20 mil.
APJ - Um policial corrupto ganhando quatro vezes mais não continuará corrupto?
CB - A corrupção é outra coisa. Hoje não é tanto na PM, mas nos presídios. Proponho tirar todos os agentes penitenciários por dois ou três anos, e analisar a vida de cada um. Devolver aqueles em quem a gente confia. Durante esses três anos põe o exército, a PM, os bombeiros. E tem que acabar com essas cadeias-cidades. Elas têm que ser pequenas, e especializadas. Assassino com assassino, estuprador com estuprador. Essa mistura faz da prisão uma escola de criminalidade.
APJ Voltando à conta do dono da padaria sobre os 99% restantes no orçamento. Só pagando os juros da dívida não sobram 99%...
CB - O Brasil é hoje um país seqüestrado pelo sistema financeiro, pelas corporações - as que têm gravata, entram no Congresso, influem no orçamento. Eu não tenho certeza que a gente vai completar a República e a Abolição. Ou que vamos conseguir os recursos para a educação. É possível que o Brasil prefira a estupidez de continuar sem gastar em educação, esperando a guerra civil ficar mais ampla. A gente se assustou muito com São Paulo. E quando atrás dos bandidos vier o povo com fome? E quando, em vez de atirarem contra bancos, abrirem as portas dos supermercados?
APJ - Mas como o “dono da padaria” resolve a vinculação com a dívida?
CB - Acabou o tempo em que a gente rasgava acordos impunemente. Evo Morales rompeu e está pagando um preço alto. O Brasil está seqüestrado pelas corporações dos setores organizados, de empresários e de trabalhadores, e pelos gastos retidos com juros. A gente não pode rasgar os contratos. O país autorizou seu seqüestro, se endividando e dando benefícios exagerados para alguns setores. O Congresso custa R$ 5 bilhões por ano. Com R$ 7 bilhões a gente muda uma geração.
APJ Isso passa por uma reforma administrativa?
CB - Passa por reduzir drasticamente o número de cargos comissionados. Não tem sentido ter 30 a 50 mil cargos.
APJ - Mantendo a carga tributária?
CB - Diminuindo, sem perder os recursos para construir a nação. Não pode reduzir salário dos professores, fechar hospitais. Aumentar a carga, não. O caminho é o crescimento. O Brasil foi enganado com a idéia de que crescia para depois distribuir. Proponho uma grande campanha pela abolição da pobreza e, através disso, ter crescimento econômico. Um keynesianismo com responsabilidade fiscal. Se contratar 400 mil professores esse pessoal terá uma renda, que vai para o sapato, a roupa, gera economia. Quando toda escola tiver computador vai ter emprego na fábrica de computador.
APJ Assim a inflação não explode?
CB - Com responsabilidade fiscal, não. E o Brasil não pode deixar que volte a inflação. Se voltar, a gente não vai falar nem de pobreza nem de educação. Muda a agenda. Uma das grandes vantagens da estabilidade monetária é que mudou a agenda. Não é mais correção monetária, inflação.
APJ - E como seria sua reforma partidária, até para evitar migração descontrolada de políticos?
CB - Qualquer um que vença será minoritário nessa Casa. O Lula vai ser presidente com um partido pequeno. E se for o Alckmin, vai ser com um partido grande? Qualquer candidato terá que compor um pacto nacional. O Lula fez para viabilizar a eleição. Eu o proponho para viabilizar as propostas de governo.
APJ - Mas como articular uma terceira via no Brasil, no longo prazo? Para uma candidatura única, o que têm em comum vocês, o Quércia e o Temer, a Heloísa Helena...
CB - PT e PSDB têm dois candidatos da primeira via. Aqui, os dois são como os republicanos e democratas nos Estados Unidos. Nós e o PPS somos segunda via. O PMDB faz parte também da primeira via.
APJ - Isso dá mais de 50% da Câmara. Como quebrar essa hegemonia, então?
CB - Não sou dos que dizem que vão ganhar a eleição. Vai ser muito difícil quebrar essa hegemonia. As chances são pequenas. Mas você não é candidato só para ganhar a eleição, mas para defender um conjunto de idéias, organizar um partido nacionalmente. Em 2010 terá outra eleição, 2014, 2018, 2022. É como nos Estados Unidos, onde há candidatos quixotescos. Tem que haver espaço para o quixotismo.
APJ - Quais as dotações orçamentárias mais passíveis de corte, os maiores desperdícios?
CB - Gosto da comparação da padaria. O presidente tem de cuidar como um dono de padaria responsável. Mas garanto que ele pega um pedacinho do lucro e põe na escola dos filhos, compra livros. Talvez ele reduza um gasto de energia, o salário de um empregado. Aqui, tem de diminuir o frio do ar-condicionado deste Congresso. Não se justifica gastar R$ 5 bilhões com o poder legislativo. Sou senador da República e não consigo saber quanto se gasta com Justiça.
*Alceu Luís Castilho
OS NÚMEROS
A proposta de Cristovam de erguer 160 mil escolas de tempo integral está muito além de outras iniciativas no País. No governo Collor, foram construídos 444 Ciacs (Centros Integrados de Apoio à Criança).
A inspiração veio dos Cieps (Centros Integrados de Educação Pública), no Rio. Mas nos dois governos Brizola foram feitas apenas 506 unidades. Durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura de SP foram edificadas 21 e projetadas 24 unidades dos CEUs (Centros de Educação Unificada).
Em 2003, com Cristovam ministro, o Brasil tinha 192.193 escolas: 169.075 do ensino fundamental e 23.118 do ensino médio (Inep/MEC). No mesmo ano: 34.666 escolas sem energia elétrica (e não 27 mil, como ele disse) e 17.094 sem banheiro (e não 22 mil).
*Mônica Paula