O deputado federal Arnaldo Faria de Sá (PTB), aqui de São Paulo, longe de ser um exemplo de ingenuidade, quis dar uma dura no advogado do PCC e levou o troco: “Você aprendeu rápido com a malandragem” - alfinetou o parlamentar. “A gente aprende rápido aqui!” – respondeu o causídico, numa clara referência ao Congresso. Preso e algemado por desacato, foi solto minutos depois sem ao menos pagar fiança. Nem poderia ser diferente porque apenas interpretava o pensamento de milhões de brasileiros calejados com a sucessão de escândalos na instituição que deveria dar exemplos de conduta.
Foi muito mais que um lavar de mãos a decisão dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, transferindo para a Procuradoria Geral da República as investigações do envolvimento de 283 parlamentares denunciados como “sanguessugas” em compras superfaturadas de ambulâncias. São R$ 110 milhões de prejuízos à Nação desviados das dotações do Ministério da Saúde, desde 2001. O corporativismo vigente no Congresso é outro escândalo. Parlamentares repetem a atitude dos carneiros que se juntam no campo. Sabem que, isolados, vão ser ameaçados pelos cães de pastoreio.
Bem por isso, continua o festival de negativas de cassações dos mensaleiros. Roberto Jefferson só foi mandado à forca porque sujou a água com suas denúncias e descumpriu a lei (ormettà) do silêncio. José Dirceu caiu do caminhão e foi deixado na estrada porque esnobava os deputados. Pedro Correa, uma pobre “ovelha desgarrada”, merecia mesmo saciar um pouco da fome da malta. E foi só... Quatro renunciaram. Um deles, o tal bispo Rodrigues, reapareceu como um dos chefes da máfia das ambulâncias, ainda agindo no Congresso, mesmo afastado. Onze foram absolvidos, restando apenas o julgamento do deputado José Jatene, do Paraná, ameaçado de ganhar uma aposentadoria por “doença”.
Ainda bem que o Supremo Tribunal Federal parece ter acordado com a eleição da ministra Ellen Gracie que mandou recolher, novamente, ao xadrez os 48 da gang das ambulâncias superfaturadas. O mesmo Tribunal também não permitiu a devolução dos R$ 10 milhões que o deputado João Batista Ramos da Silva transportava num jatinho da Igreja Universal. É ilógica a história de que a dinheirama, toda em notas de R$ 50, havia sido arrecadada dos fiéis num final de semana de cultos. Esse João Batista (expulso do PFL e agora no PP) foi um dos candidatos à Câmara Federal mais votados em Bauru - teve 6.16l votos - sem nunca ter posto os pés na cidade.
Outro bom exemplo do Poder Judiciário veio do Tribunal Superior Eleitoral. Contrariando as expectativas aprovou a chamada minirreforma eleitoral válida já para as próximas eleições. Estão proibidas distribuições de brindes, como bonés e camisetas, e a realização de showmícios e as caras propagandas em outdoors, entre outras. Por inconstitucional, o Tribunal vetou artigo que proibia a divulgação de pesquisas eleitorais 15 dias antes da eleição. Isso seria uma volta à censura aos meios de comunicação, extinta desde a vigência da atual Constituição de l988. O Tribunal manteve a proibição de doações em dinheiro vivo. Os partidos terão que divulgar seus gastos eleitorais pela Internet. Tesoureiros serão responsabilizados. Procura-se um novo Delúbio.
O curioso é que com toda essa roubalheira e envolvimento do PT no mensalão, o presidente Lula continua blindado e favorito absoluto à reeleição, mesmo com seus 27% de rejeição. “Chuchu beleza”. Meu colega da Unesp de Franca, professor JM Carvalho França, em recente artigo explica que aqui no Brasil nos devotamos ao “culto do homem simples”, desde a visão dos jesuítas, segundo os quais os nativos não pecavam contra Deus porque eram ignorantes demais e nem chegavam a conhecê-lo. Hoje, “cultivamos um discreto mas profundo preconceito pelas pessoas cultas, preconceito ancorado na suposição de que, num país tão desigual, o conhecimento necessariamente traz consigo a mácula da exploração, da malícia, do esnobismo”. Em outras palavras: Lula não pode ir para o inferno e muito menos responder pelas safadezas da companheirada porque é só um “bom selvagem”. Nem sabe o que é Deus. Fato, no entanto, que não o impede de governar o Brasil. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)