Permanecer quase 90 dias sem falar. Essa foi a experiência realizada recentemente pelo estudante de teatro bauruense Davi Souza Mastrangeli, 22 anos. Em um profundo processo de interiorização e reflexão, ele buscou o autoconhecimento para perceber melhor a realidade e viver com mais intensidade o momento presente.
Apesar de não ser estimulada por nenhum religião, a experiência de Mastrangelli se assemelha às práticas de monges budistas ou à meditação, indicada por especialistas como uma das principais formas de aliviar as tensões e o estresse cotidiano.
Aparentemente fácil, o ato de se calar é visto por muitos como um verdadeiro teste de calma e paciência, principalmente para os ocidentais, que têm mais dificuldades em ficar quietos.
Mesmo sabendo disso, Mastrangeli aceitou o desafio e permaneceu mudo. Começou a se comunicar somente por meio de olhares, gestos e linguagem corporal. Acostumado a dançar, ir ao supermercado e sair com os amigos, durante a experiência, ele não modificou sua rotina, mas aproveitou para aprofundar sua relação com os pais e os quatro irmãos e a perceber melhor o mundo. Nas horas em que sentia necessidade de extravasar suas emoções e sentimentos, fazia uso da escrita e anotava seus pensamentos e frases em um pequeno diário.
Em entrevista ao Jornal da Cidade, Mastrangeli conta que ao realizar a experiência não elaborou metas ou objetivos, apenas buscou ouvir seu coração. A seguir, ele conta detalhes de sua experiência e mostra que o silêncio não é apenas ausência de barulho, mas catalisador de transformações.
Jornal da Cidade – Por que você resolveu passar 90 dias sem falar?
Davi Souza Mastrangeli – Tudo começou a partir de uma tentativa de me conhecer, porque, às vezes, em silêncio, nós entramos em um casulo e buscamos nosso interior, começamos a ouvir a voz da intuição e a refletimos. Para mim, além dessa busca e do autoconhecimento, a experiência serviu para muitas outras coisas. Comecei a descobrir coisas a minha volta que eu não percebia antes.
JC – Quais, por exemplo?
Mastrangeli – Observar as relações humanas e perceber o mundo diferente. Agora vejo as coisas mais com o coração. Não há diferenças entre as pessoas. Todos temos sentimentos e emoções. Por meio da experiência, percebi a importância de conhecer o próximo e não criar essas barreiras que existem no mundo, por exemplo, entre idiomas ou deficiência.
JC – Você falou em barreiras. Sofreu algum tipo de preconceito durante o período no qual permaneceu sem falar?
Mastrangeli – Sim, sofri preconceito. Uma vez eu estava dentro de um ônibus e vi como as pessoas tratam os deficientes. Senti na pele o modo como algumas se assustam ou se afastam, colocando muitas barreiras.
JC – Quando decidiu fazer a experiência teve apoio da sua família?
Mastrangeli – No começo, eles ficaram perguntando: ‘Mas para quê isso?’. E além disso eu não havia previsto uma data para iniciar a experiência. Mas quando comecei eles acabaram aceitando.
JC – De que forma se comunicava com seus pais e irmãos?
Mastrangeli – No começo eu só escrevia ou olhava muito nos olhos deles para me comunicar. Isso foi uma coisa que eu e minha família desenvolvemos muito. Através do olhar, se percebe o quanto a pessoa está ligada na outra; isso pode ser percebido durante uma conversa, por exemplo. E para falar comigo, meus pais e meus irmãos tinham que olhar nos meus olhos. Eu passava o que estava sentindo e muitas vezes não precisava nem escrever. Só com gestos eles entendiam. Com isso, acabei desenvolvendo mais a expressão corporal.
JC – Como era seu dia-a-dia? Foi fácil se relacionar com as pessoas?
Mastrangeli – Não mudei nada. Eu faço as compras em casa e não deixei de fazê-las. Continuei indo ao supermercado, ao advogado, ao banco e pagando minhas contas normalmente. Só que a reação dos outros era diferente. Algumas pessoas que me conheciam perguntavam porque eu não estava falando e quando souberam o motivo me respeitaram. Outras que não me conheciam achavam realmente que eu era mudo. Havia também pessoas que achavam que, por ser mudo, também era surdo e me tratavam como tal.
JC – Para facilitar a comunicação, você chegou a aprender Língua Brasileira de Sinais (Libras)?
Mastrangeli – Eu sempre tive muita vontade de fazer o curso de Libras, mas no final das contas aprendi várias coisas sozinho. Apesar disso, ainda quero aprender Libras. No Centro da cidade tem uma concentração de surdos e mudos e tenho muita vontade de conversar com eles, porque há muito sentimento na comunicação.
JC – Durante seu processo de interiorização, você pretendia alcançar alguma meta ou objetivo?
Mastrangeli – Eu busquei ir fundo, mas não pensei exatamente no que iria descobrir. Minha experiência envolveu o todo e, talvez se eu ficasse pensando nos objetivos, poderia ser que não conseguisse passar por ela.
JC – Nesse período, você disse que escreveu muito.
Mastrangeli – Sim, eu anotei algumas coisas. Às vezes sentia muita energia e anotava em um caderno. Outras vezes sentia muita vontade de falar e escrevia o que estava sentindo em um pequeno diário.
JC – Apesar de você não ter programado metas, qual foi o ‘balanço’ dessa experiência?
Mastrangeli – Há dois lados. Percebi que comunicação é importante. As pessoas dão tanta importância para ela, mas às vezes as palavras acabam perdendo seu valor. Muitas são ditas apenas por dizer e palavras vazias são um desperdício de alento. Algumas pessoas ‘jogam’ as palavras no ar e na maioria das vezes se aprende muito mais coisas olhando nos olhos e sentindo o que a pessoa quer transmitir.
JC – Quando estava sem falar, você fez um teste para entrar em um grupo teatral. Como foi essa experiência?
Mastrangeli – Foi muito interessante. Fui fazer o teste com meus irmãos e no começo não queria porque ficava imaginando: ‘Como vou passar se eu nem falo?’. Resolvi ir assim mesmo e o diretor do Centro Cultural me aceitou. No teste, haviam horas em que era preciso gritar e eu gritava com meu interior. Meu grupo começou os exercícios e deu certo. Acho que quando a pessoa não fala, fica mais sensível às coisas e transmite com sinceridade. Quando o teste terminou, o diretor perguntou se eu tinha interesse em participar do grupo. Fui uma das 15 pessoas escolhidas. Fiquei muito feliz.
JC - Você voltou a falar há algumas semanas. Sentiu mudanças em sua vida?
Mastrangeli – Muitas. A começar da minha voz. No começo ela saía rouca e eu não conseguia falar muito alto. As pessoas falavam no tom médio e para mim era alto demais. Agora estou exercitando mais a minha voz. Acho que se ficasse um ano sem falar não iria perdê-la, mas as cordas vocais ficariam enfraquecidas. Fiquei durante uns dois ou três dias rouco, falava e ouvia minha voz ao mesmo tempo. É uma sensação esquisita, porque quando fiquei mudo não falava nem sozinho. Quando voltei a falar foi uma surpresa ouvir minha voz.
JC – Por que decidiu voltar a falar?
Mastrangeli – Comecei a sentir meu coração. Ele estava pedindo para que eu voltasse a falar, pedia para que eu ‘voltasse para o mundo’ ou nascesse de novo.
JC – Anteriormente você usou a expressão ‘voltasse para o mundo’. Em algum momento se desligou dele?
Mastrangeli – É, dá a impressão que entrei em outra realidade. É bom porque com a experiência pude ver as coisas de fora e o coração ficou mais aberto do que a razão. E o coração nos deixa ligados, não faz julgamentos e nem cria distância ou barreiras entre as pessoas. É possível sentir muito mais e foi por isso que resolvi me ‘deslocar’ um pouco da razão. O coração é mais sutil e intuitivo. O que posso dizer é que, por intermédio dessa experiência, consigo distinguir e definir melhor as coisas e deixar minha vida fluir mais com o coração do que com a razão. Às vezes ando na rua e percebo que há uma pessoa que nem conheço, mas que precisa de um abraço. E isso é o mais importante.
JC – Agora que você voltou a falar, se tornou mais intuitivo?
Mastrangeli – Hoje eu sou à ‘flor da pele’. Sempre fui um pouco intuitivo, mas durante o tempo que fiquei sem falar desenvolvi bastante a intuição. Como mudo, consegui perceber, sentir e me entregar melhor para essa força.
JC – Buscou aprimorar seu sexto sentido?
Mastrangeli – Aí entra a questão de fé. Em casa, ouvi música e fiz alguns exercícios para transcender porque, apesar de me calar, os pensamentos continuam. Aprendi a desenvolver o lado da emoção interior e também buscá-la fora porque descobri que Deus está em mim, nas pessoas, nos lugares, nas palavras, Ele é um todo.
JC – Sua experiência foi motivada ou influenciada por alguma crença ou religião?
Mastrangeli – Sempre tive curiosidade em conhecer todas as religiões e descobrir porque há tantas diferenças entre elas. Já freqüentei as igrejas católica e evangélica e minha família inteira segue o espiritismo. Fui a um centro de umbanda, li um pouco sobre budismo e até ufologia, que para alguns é uma religião. Descobri que existem muitas diferenças entre as religiões. Uma coisa, porém, é igual e imutável em todas elas.
JC – O que une as religiões?
Mastrangeli – O amor, amar ao próximo como a ti mesmo. O contato com a Natureza Divina e o amor entre as pessoas está presente em qualquer religião. Se sentimos o amor, descobrimos que o próximo é como nós mesmos E se essa é a essência, eu posso sentir e deixar o coração, que é o intermédio entre o homem e Deus, falar. Ser mais coração, ser mais amor. Essa é minha fé.
JC – Podemos dizer que em sua experiência você se calou para sentir seu coração?
Mastrangeli - Está tudo dentro do nosso coração, tudo o que se possa imaginar. Pensei em voltar de repente a não falar durante mais tempo, mas fico em dúvida porque não há mais o que buscar. Já não é necessário calar ou falar, ser forte ou fraco, rico ou pobre, ter força ou não. Basta compreender que tudo está dentro de si próprio. Quando me calei, entrei em um casulo e saí outra pessoa, nasci para o mundo. Conheci a minha verdade e não digo só a minha, mas a de Deus.
JC – E qual é essa verdade?
Mastrangeli – O amor. É respeitar ao próximo, aprender, conhecer o mundo e não impor barreiras.