Mulher

Avanços femininos

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 3 min

Ser mulher, profissional, mãe, amante, administrar a casa, controlar os gastos, cuidar da saúde e bem-estar. São inúmeros os papéis e as funções assumidos pelas mulheres contemporâneas e desempenhadas, na grande maioria das vezes, com louvor. Para provar esse cenário, basta acompanhar a evolução feminina no Brasil.

Por conta do maior acesso à educação, por exemplo, as mulheres já representam cerca de 65% das pessoas que concluem nível superior, de acordo com dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, órgão ligado à Presidência da República.

No mercado de trabalho, as mulheres partilham quase de igual para igual com os homens e ocupam postos de liderança em várias empresas. Segundo o IBGE, os domicílios chefiados por elas aumentaram em quase 37%. E os avanços não páram por aí. Consideradas as “queridinhas” dos supermercados, as mulheres são boas pagadoras e consumidoras conscientes. Além disso, ganharam cada vez mais espaço público, respeito e cidadania.

Grande parte desse progresso pode ser creditado à feminilização da cultura, uma nova mentalidade que não se refere ao homem ou a mulher, mas a um processo que faz com que aquilo que é condição da vida da mulher – como as atividades domésticas e educação dos filhos, entre outros aspectos herdados desde a pré-história - migre para todas as esferas da produção, aponta Elaine Caramella, doutora em história da arte e livre docente em estética e semiótica.

“O modo de pensar e raciocinar da mulher rompe a lógica do contexto programado. Não divide razão de emoção; para ela, são duas faces da mesma moeda”, observa a historiadora. A feminilização da cultura pode ser vista no mundo trabalho, ressalta Caramella. “A cultura como um todo está mudando porque não é mais um mundo tão masculino. Basta ver o caráter das novas profissões, por exemplo. Entre elas, turismo, hotelaria, gastronomia, moda e vestuário são prolongamentos de tarefas domésticas.”

Nesse cenário contemporâneo, marcado pela transição da era da lógica previsível e linear para a era dominada pela instabilidade, diz a historiadora, a mulher tem mais chance de se sobressair, observa Caramella. Isso porque ela é versátil e sabe lidar com a simultaneidade e mudança permanente.

“A mulher foi educada para brincar com a casinha inteira e isso não é o caso do homem. Nas suas atividades domésticas, ela aprendeu a lidar com o imprevisível. Arruma a casa, atende o telefone, cuida dos filhos, faz comida, ajuda o marido, lava a roupa, é secretária do marido e amante. Tudo ao mesmo tempo. E inclusive aquelas que trabalham fora de casa, ‘pilotam’ tudo pelo telefone”, detalha Caramella. “Essa repetição de ações simultâneas, rápidas e imprevisíveis faz parte da condição feminina. Para o homem, o não programado é complicado”, ressalta.

De fato, o avanço das mulheres no espaço público, nas atividades profissionais e intelectuais é indiscutível. Mas essa positividade não pode ser tomada como tranqüila e homogênea, aponta Lidia Vianna Possas, historiadora e professora de história da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília. Segundo ela, apesar dos progressos, as mulheres ainda mantêm interiorizadas práticas e tradições que sobrevivem a muitas gerações e amordaçam parte dessa evolução.

“Principalmente nas famílias de classe média, ainda há a persistência das funções tradicionais: a necessidade do casamento, de ser boa mãe, administrar bem a casa, ter um universo equilibrado e conciliar tudo isso com a vida pública, profissional e intelectual”, diz Possas. Ela explica que a mulher tem múltiplos papéis e não consegue se desvencilhar deles. “Ela é cobrada até por si própria porque existe uma interiorização do papel de ‘amélia’, daquela que pode dar conta de tudo.”

Para Possas, todo o progresso feminino é fruto de muito esforço e veio acompanhado de um ônus grande. “Tudo o que está acontecendo é uma conquista dos movimentos feministas, não foi nenhuma doação do status quo”, diz. De acordo com ela, a evolução é um processo histórico, não linear, que depende das condições internas de cada sociedade. “É um movimento de avanços e recuos porque depende do engajamento das mulheres e da própria consciência da sociedade”, pontua.

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