Nas últimas semanas, policiais de todo o Estado trabalharam sem descanso. Em Bauru, alguns fizeram plantões de 72 horas. Mais de 40 morreram em conflitos em São Paulo. Além de trabalhar em clima de tensão, os policiais não recebem por hora-extra nem possuem compensação como banco de horas. Segundo José Carlos Vítor de Oliveira, delegado da Subsede-4 e conselheiro da Associação de Investigadores de Polícia do Estado de São Paulo (Aipesp), e Ricardo Oliveira, da Associação dos Policiais Militares do Estado de São Paulo (Apomi), o governo estadual não oferece plano de carreira e nem reconhece financeiramente ao empenho dos policiais do Estado.
Os representantes das Polícias Civil e Militar apontam que o salário de São Paulo só não é menor que o oferecido aos policiais do Piauí. “Somos reconhecidos como a melhor polícia do País, mas temos o penúltimo salário. Temos o reconhecimento profissional, mas não o financeiro”, observa José Carlos. Ele também critica a falta de ascensão na corporação. “O jovem quer entrar na polícia para subir na carreira. Mas faz muito tempo que tanto a Polícia Civil quanto a Militar estão estagnadas”, observa.
Ricardo ressalta que as forças de São Paulo sempre exportaram tecnologia e conhecimento na área. “Sempre fomos referência. Os outros Estados vinham aprender a trabalhar aqui. Falta recompensa e incentivo por isso”, afirma. Ele também critica a dificuldade de acesso aos postos mais altos. “Um jovem sargento ou tenente, não tem perspectiva de chegar a coronel ou subtenente”, observa. O mesmo se repete na Polícia Civil, de acordo com José Carlos. “Um investigador inicia na 5.ª classe e termina na classe especial. Mas para chegar lá é difícil, o governo não oferece oportunidades e o policial fica desmotivado”, avalia.
José Carlos ressalta que o último aumento salarial recebido foi há 12 anos. “Não recebemos nem as perdas causadas pela inflação. Isso durante desde o início do Plano Real. Se formos comparar com os reajustes do salário mínimo, a defasagem chega a quase 500%”, calcula. Os dois representantes também criticam a falta de equipamentos e de estrutura. Para Ricardo, o problema começou no governo de Mário Covas, quando cinco comandos policiais no interior foram extintos. “Os coronéis viraram subcomandantes. Tiraram unidades com poder de decisão e que conheciam a realidade da região”, observa.
“Nós somos sensíveis aos problemas que levam ao aumento da criminalidade, como educação, desigualdade social, desemprego. Mas nesse momento, precisamos que o governo adote medidas concretas para melhorar a situação, como revalorização da carreira policial”, defende Ricardo. Para José Carlos, o trabalho realizado precisa ser prestigiado. “Nos últimos acontecimentos, fomos exigidos e mostramos serviço.
Debate
Ricardo Oliveira e José Carlos de Oliveira afirmam que o momento é oportuno para a discussão sobre políticas públicas de segurança. Eles avaliam que a megarrebelião comandada pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), iniciada nos presídios do Estado, colocaram em evidência a fragilidade das decisões tomadas pelos governantes ao longo dos anos.
“Sempre colocamos nossas exigências salariais, mandamos sugestões e propostas e nunca fomos ouvidos. Infelizmente, as conseqüências surgiram”, observa Ricardo. Ele espera que neste ano, quando ocorrem eleições estaduais e federais, os candidatos assumam compromissos com a área.
Outra discussão é sobre a política de benefícios salariais. De acordo com eles, o governo vêm incorporando bonificações aos vencimentos, mas não concedeu nenhum reajuste. Os benefícios seriam recebidos somente por quem está na ativa, os que estão aposentados ou afastados, não recebem esses abonos. “E o inativo que foi exposto às mesmas ameaças nesse período? Que enfrenta os mesmos riscos?”, questiona Ricardo.
Segundo informações do Palácio dos Bandeirantes, além de abonos e outras incorporações de vencimentos, os policiais civis e militares têm direito a uma série de outros benefícios, como hospitais, centros odontológicos, diferentes linhas de crédito bancário, planos habitacionais, seguro de vida e cesta de medicamentos.