Internacional

Filmar com Brad Pitt não foi fácil, diz o melhor diretor em Cannes

Por Silvana Arantes | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

O mexicano Alejandro González Iñárritu saiu do Festival de Cannes, anteontem, como o melhor diretor, por “Babel”, que estava cotado pela crítica para a Palma de Ouro - entregue ao inglês Ken Loach (“The Wind that Shakes the Barley”). “É mais do que eu podia sonhar”, disse Iñárritu. Na quarta passada, ele recebeu a reportagem e outros cinco jornalistas estrangeiros para a entrevista a seguir, em que fala de “Babel” e de Brad Pitt, astro do filme. Pitt não foi a Cannes porque aguardava Shiloh Jolie-Pitt, sua filha com a atriz Angelina Jolie, que nasceu no sábado.

Pergunta - Por que quis Brad Pitt no papel do turista cuja mulher é atacada no Marrocos e os filhos se perdem no México?

Alejandro González Iñárritu - Gosto da idéia de ter uma celebridade numa situação tão extrema que as pessoas esqueçam que estão vendo Brad Pitt. Conseguir isso era tentador.

Pergunta - Era seu único objetivo ao contratar um astro?

Iñárritu - Com seu carisma, Pitt me ajudou a achar pessoas que nunca estariam no filme. Ele tem esse raro poder das estrelas para atrair pessoas. Pensando nele como um ícone da sociedade americana, era uma idéia desafiadora colocá-lo naquela situação.

Pergunta - O que ele disse sobre ficar grisalho e com rugas?

Iñárritu - Ele estava disposto a isso. Era um projeto arriscado para ele. Não ganharia o que em geral ganha, as filmagens seriam desconfortáveis e difíceis e, quando filmamos, ele atravessava um período difícil em sua vida pessoal (a separação da atriz Jennifer Aniston). Mas ele se desafiou a fazer algo anormal para ele e confiou em mim.

Pergunta - Como foi a relação de vocês nas filmagens?

Iñárritu - Boa e intensa. As filmagens não foram fáceis nem para ele nem para mim. Ele foi melhorando a cada dia. No final, estava de fato no papel. A última cena que filmamos é a do telefone, em que ele fala com o filho. Ali, ele é o (personagem) Richard. Pitt aparece só 26 minutos, e parece ser muito mais. É o poder de um ator.

Pergunta - Qual será seu próximo filme?

Iñárritu - Não gosto de falar antes. Só com o filme pronto.

Pergunta - Algo com começo, meio e fim, nesta ordem?

Iñárritu - Um monólogo de um cara num apartamento. Vai ser meu filme mais arriscado (risos). Para mim, o único jeito de descrever a realidade de uma pessoa é mostrar o sistema que corre em paralelo à vida dela. Para entender um traficante colombiano, é preciso saber a realidade que o definiu. E tenho TDA (transtorno do déficit de atenção). Quem tem TDA faz muitas associações de idéias. É o mais fácil para mim, mas espero um dia fazer algo em ordem cronológica.

Pergunta - Qual foi seu ponto de partida em “Babel”?

Iñárritu - Estou fora do meu país há cinco anos (vive em Los Angeles), tenho viajado muito. Em “Babel”, estão em cidades que adoro, culturas que me interessam, problemas de fronteira entre meu país e os Estados Unidos, o tema do preconceito em relação aos muçulmanos. Ser muçulmano não significa ter algo a ver com terrorismo. Mas os norte-americanos estão expostos a uma mídia que generaliza a imagem dos muçulmanos como uma ameaça em potencial. Meu filme não é político, mas não se pode negar que tudo que fazemos hoje é afetado pelo momento político: quando você pega um avião, quando viaja para os EUA, o medo está impregnado. E isso ocorre porque as fronteiras reais e as que criamos ideologicamente são terríveis. Não concordo, e preciso me expressar.

Pergunta - O que fez durante o Dia Sem Imigrantes, no mês passado, nos EUA?

Iñárritu - Fui para a marcha. Estava no meio da montagem do filme, e os produtores ficaram loucos comigo porque fugi durante quatro horas. Vi essa imagem linda de 800 mil latinos com suas bandeiras. Não foi uma coisa raivosa, mas entusiasmada.

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