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Expectativa de expectativas


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É dureza ter que reconhecer isso, mas o Banco Central do Brasil e o Conselho de Política Monetária tornaram-se servos do setor financeiro. Usam a autonomia que lhes foi concedida para submeter o setor produtivo aos interesses do “mercado” financeiro, ignorando os prejuízos crescentes impostos aos exportadores brasileiros e a agonia dos produtores rurais. O governo reage pouco a essa situação, parece não perceber que a autoridade monetária está recriando aquelas condições que levaram à destruição do setor exportador, ao desastre da agricultura e ao endividamento do período 1994/98.

Mais desagradável é ver os argumentos que o Banco Central reúne para justificar essa postura submissa diante do setor financeiro, primeiro convencendo o governo que não poderia baixar os juros como deveria porque havia muitas dúvidas sobre se a situação fiscal estava ou não sob controle. Recentemente, preparando o terreno para a reunião do Copom, estimulou a expectativa de uma queda de apenas 0.50% na taxa Selic sob pretexto que as exportações já vão mesmo cair e então não havia porque baixar mais os juros...

É inconcebível aceitar este tipo de explicação. O Banco Central está realizando a sua política forjando uma expectativa da expectativa da inflação. Isso é construído pela consulta que faz a meia dúzia de “gênios” no setor financeiro que a devolvem como sendo a “expectativa majoritária do mercado”. No início da semana passada já se sabia que na reunião do Copom o corte seria de 0.50% porque este era o pensamento “majoritário” do mercado, em lugar dos 0.75% como teria sido perfeitamente possível. Ao cortar meio por cento no intervalo ampliado de 45 dias, ele está reduzindo a taxa de juros mais lentamente ainda do que no sistema anterior.

O Banco Central agiria corretamente se restringisse o seu “metier” a mover a taxa de juros para conter a inflação quando houvesse uma expectativa real de elevação dos preços e não como acontece agora em que a situação é de estabilidade e – se existe alguma perspectiva – é na direção contrária! Basta observar o que se passa no setor produtivo: 1. Na agricultura parece que não existe chão para a queda dos preços; 2. Na indústria, setores dinâmicos como o automobilístico, reduzem projeções de exportação e calçadistas e texteis, também de forte vocação exportadora, perdendo mercados e fechando instalações.

É dispensável comentar o efeito disso sobre a demanda e o emprego, vítimas da maldição da taxa de câmbio produzida pela viciada arbitragem de juros patrocinada pelo Banco Central.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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