O diretor de Cultura e Turismo de Bocaina, Júlio Bonani, conta que há relatos de que em 1888 a passagem da fogueira era tradição nas fazendas de café da cidade e de municípios da região. A festa era promovida pelos colonos na época de final de colheita no São João. Posteriormente, o predomínio da urbanização trouxe o costume para a zona urbana da cidade. A tradição da fogueira foi introduzida no Brasil por colonizadores portugueses e adaptada à religiosidade local.
A passagem da fogueira e outros costumes de Bocaina estão sendo pesquisados por meio de levantamento da Diretoria de Cultura e Turismo. Segundo Bonani, uma das fontes mais consistentes é o relato oral dos moradores da cidade.
A bocainense Maria Cecília Asserin, 70 anos, reside de frente para a praça da Matriz, onde acontece a concentração de milhares de pessoas para a passagem da fogueira. É uma espectadora assídua da festa, porém só passa ao redor da brasa no dia seguinte para apanhar o carvão, que diz ser ótimo para simpatia. “Com toda fé que eu tenho, nunca me arrisquei a passar. Nem os padres se arriscam”, comenta.
Segundo Asserin, antigamente a festa de São João Batista era o momento em que as famílias recepcionavam parentes e visitantes com comida farta o dia inteiro. No período do Cônego José Mendes de Abreu Júnior, foi instituída a barraquinha da maçã. O famoso cônego ficou na cidade por 40 anos, onde morreu e foi sepultado na Igreja Matriz. Ela revela que gostava de servir chá para o adoentado cônego como pretexto para entrevistá-lo e registrar sua vida em um caderno de anotações.
Na época do cônego, o largo da matriz era de terra batida e a barraca de jogos de azar, permitidos naquele período, era uma das mais freqüentadas. A missa solene tinha um coral de quatro vozes que interpretavam canto gregoriano. Asserin fala com especial reverência que integrava o coral da paróquia.
Entre as simpatias, cita que as moças cortavam talo de bananeira e colocavam em uma bacia com água. À meia-noite, iam verificar o nome do futuro namorado. Outra história que entrou para o folclore da passagem da fogueira é a das mães que jogavam um tufo de cabelo dos filhos para que a cabeleira ficasse crespa.
Embora a comemoração do padroeiro tenha adquirido ares de espetáculo, persiste o costume entre os visitantes e moradores de cultuarem simpatias. Um dos costumes é jogar na brasa pedidos registrados em pequenos papéis, pois se crê que o São João Batista vai atendê-los. Ela avalia que hoje a festa perdeu um pouco do aspecto religioso com o consumo ganhando maior importância.