Namorado era aquele que procurava conquistar o amor do outro, cujo olhar atraiu sua atenção, mostrando o melhor de si. Para ir ao encontro da pessoa amada, arrumava-se o melhor possível, conversava com delicadeza, buscando palavras carinhosas e poéticas, expunha suas idéias e seus gostos sem impor, buscando um entendimento e confrontando os ideais que ambos possuíam em comum e com isso muito se regozijavam e começavam a entrar no clima do romance.
Havia, é verdade um jogo de sedução que envolvia até pequenas mentiras, na tentativa de conquistar, de agradar, de galantear. É claro que todo esse conteúdo do namoro, a partir do flert, que era apenas a troca de olhares, daí para o namorico (existiu mesmo, não duvidem, está no dicionário) e depois o namoro propriamente dito, que compreendia passeios, sessões de cinema e bailes, nos quais o namoro costumava se firmar depois de dançarem e conversarem muito, levava um certo tempo. Creio que nunca menos de um mês, se ambos estivessem mesmo muito interessados e não fossem muito tímidos. Daí, o andamento natural era o noivado, que podia ser longo ou não e o casamento, coroando e estruturando aquilo que se supunha, viria a ser um casamento perfeito, e muitas vezes era mesmo.
Hoje, tudo isso mudou, o namorado ou namorada não é mais o que conquista com carinho, galanteio e romantismo, ao longo de um certo tempo. Hoje ficam ou não ficam, logo, sem se conhecerem direito e muitas vezes, as conseqüências desse “ficar” são trágicas, “ficam” sem saberem se realmente estão interessados em estabelecer laços para toda a vida, com o aparecimento de uma criança e/ou de uma doença grave, ou ainda abra caminho para vícios e perversões sexuais, que se propagam por meio dessa “ficância” irresponsável. Se o namoro de outrora era cheio de mentiras, hipocrisia e fingimento, esse “ficar” de hoje, mais sincero, inclui riscos físicos, materiais e mentais. Enfim, seja namoro, seja “ficância” é bom que se dêem tempo para pensar e ponderar melhor, porque nada, nem o romantismo do namoro de outrora, nem o pragmatismo do “ficar” de hoje supera o bom senso, que deve ser usado quando um homem ou uma mulher se dispõe a se entregar a outrem.
Isolina Bresolin Vianna - escritora