Cultura

Sobre mundos: Código da vida

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Em um mesmo final de semana fiz uma experiência única. Na sexta-feira fui assistir à estréia do tão comentado e polêmico “O Código Da Vinci” e, no sábado, fui a uma locadora e conferi em casa o filme brasileiro “1,99”, de Marcelo Masagão. Quando terminei de assistir o segundo filme, fiz uma grande descoberta: o “1,99” é o código perfeito para compreender “O Código Da Vinci”.

O livro de Dan Brown que deu origem ao filme podemos comparar a uma outra obra que também provocou muita polêmica e deu origem a uma produção cinematográfica: o livro de Umberto Eco “O Nome da Rosa”. Em relação a “O Código Da Vinci”, tanto o livro quanto o filme “O Nome da Rosa” são não somente superiores em sua qualidade, mas possuem uma diferença estrutural: enquanto Eco utiliza personagens fictícios para descrever um contexto verdadeiro, uma parte triste da história do Cristianismo no Ocidente, ou seja, a atuação da Igreja na Idade Média, Dan Brown se utiliza de personagens reais para criar uma ficção com objetivo essencialmente comercial.

No centro dessa ficção está o suposto casamento de Jesus com Maria Madalena. O autor de “O Código Da Vinci” utiliza como fundamento para essa tese o Evangelho apócrifo de Felipe. Neste encontra-se uma cena, na qual Jesus dá um beijo na boca de Maria Madalena. A partir deste fragmento, Dan Brown desenvolve sua fantasia sobre a filha que surge da união entre Jesus e Madalena. O que o autor não esclarece em sua obra é que, na cena descrita pelo Evangelho apócrifo, os apóstolos ficam enciumados, o que prova que o beijo não foi entre marido e mulher, mas entre mestre e discípula.

Em primeiro lugar, o beijo é um ato comum entre os povos orientais, uma expressão normal de respeito e carinho ou de simples formalidade no cumprimento entre as pessoas. Se o beijo entre Jesus e Madalena fosse um beijo de marido e mulher não haveria necessidade dos discípulos ficarem enciumados. O que Dan Brown também não esclarece é que o casamento para os judeus é um fato de grande importância e não possuía, na época, nenhum caráter de desmerecimento, muito pelo contrário, o casamento era uma honra.

Se Jesus fosse casado, com toda certeza, este fato seria mencionado em um dos quatro Evangelhos que possuímos na Bíblia, como também em outros Evangelhos apócrifos. Mesmo porque os Evangelhos foram escritos por judeus e na Antiguidade, na época em que a Bíblia foi compilada, ser casado não constituía nenhum problema para o Cristianismo nascente. A regra do celibato para o clero, de um modo geral, só surgirá séculos depois, na Idade Média.

O que podemos talvez tirar de positivo da obra de Dan Brown é, além da crítica feita à Opus Dei, o resgate da relevância da mulher no início do Cristianismo. Por uma tradição machista, a atuação das mulheres no início da Era Cristã foi esquecida tanto pela Igreja Católica como pelas Igrejas Protestantes. Mesmo assim, se Dan Brown possui essa intenção (o que eu não acredito), ele a realiza sem se utilizar de fontes arqueológicas sérias e criando uma história fantasiosa repleta de mistérios. Tanto a livro de Dan Brown, como o filme, possuem, na verdade, a intenção de explorar comercialmente o fetiche da curiosidade.

E isso é explicado pelo ótimo filme “1,99”. Em primeiro lugar, a diferença dos dois filmes, “1,99” e “O Código Da Vinci”, é, em seu estilo, gritante. Enquanto este último possui uma estrutura comercial e, portanto, não exigente, um filme que não leva ao questionamento e à reflexão (você sai do cinema exatamente como entrou), o filme de Masagão não é, de forma alguma, “cultura de massa”, provocando em cada seqüência, reflexões e questionamentos. O filme “O Código Da Vinci” é uma imitação barata de “Missão Impossível”, com soluções fáceis e espetaculares para os problemas, um ambiente “kitsch-chick” repleto de mistérios que não possuem nenhuma ligação com nossa realidade. O “1,99” é provocativo, inusitado e nos revela mistérios da realidade que, muitas vezes, não percebemos.

O filme de Masagão conta a história de um supermercado que vende palavras, nenhum conteúdo, somente frases de efeito, jargões. Os personagens são o desejo, a angústia e a compulsão que temos pelo ato de consumir. No filme encontramos pessoas apáticas, incapazes de construírem sua própria história, e que estão à procura de frases pré-fabricadas de efeito psicológico e toda a sub-cultura do consolo e da auto-ajuda. No filme, o ser humano é revelado como um ser manipulado pela moda (agora todos devem utilizar celular, todos devem fazer ginástica, agora todos devem ler o “Código Da Vinci”...). Quem não estiver na moda está excluído pelo sistema de consumo.

Na verdade, “1,99” nos abre os sentidos para a nossa própria realidade e nos faz entender o código do “Código Da Vinci”. Enquanto estivermos em busca de mistérios que não possuem nenhuma ligação com nosso dia-a-dia, estaremos alienados da realidade, sustentado financeiramente a indústria do consumo, e autores como Dan Brown ou Paulo Coelho poderão continuar a viver em seus castelos franceses e trocar anualmente suas Ferraris e, pior, não estaremos encontrando o sentido de nossa passagem por esta existência.

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