Mais um Dia do Meio Ambiente chega. Momento especial para reflexão quando os desafios ambientais se tornam cada vez mais evidentes, verdadeiros conflitos que se impõem.
Temos um problema muito grave de escassez de água para o abastecimento. Já retiramos do Rio Batalha muito mais do que é autorizado pelo Estado, sendo que a capacidade de produção de água subterrânea também está no limite. De acordo com o DAE, apenas dois novos poços profundos poderão ser perfurados na área urbana. Buscar água no Água Parada não custará menos de R$ 70 milhões e mesmo assim corremos o risco de perdermos o manancial com o esperado desenvolvimento na região do novo aeroporto. As obras de tratamento de esgoto estão sendo implementadas, algo bastante positivo. Lançamos mais de 1.500 litros por segundo de esgoto em nossos rios. O projeto está sendo contratado, interceptores sendo colocados e um novo acordo com o MP em fase de negociação. O que não dá para aceitar é a previsão do DAE de 100% do esgoto tratado em 2013. É muito tempo para uma obra que pode ser realizada em 3 anos. Mais de 70% das cidades do Estado já tratam esgotos.
Produzimos cerca de 300 toneladas de lixo por dia, quase um quilograma por habitante por dia, com menos de um terço apenas sendo encaminhado para a reciclagem, o restante é enterrado sem qualquer triagem em um aterro esgotado. Um novo não sairá por menos de R$ 5 milhões e deverá obrigatoriamente ser instalado no próximo ano. A política de reciclagem ainda não foi capaz de atender toda a cidade e os catadores, apesar de todos os esforços em organizá-los e reuni-los em uma cooperativa, ainda estão à margem da sociedade. Os entulhos e o lixo hospitalar também são graves problemas. Falta conscientização. Muita gente se acostumou a jogar lixo no chão, nos bueiros e terrenos de toda a cidade. Temos aí a dengue e a leishmaniose.
As áreas verdes constituem um grande desafio. Mais de 200 pequenas praças até hoje não foram urbanizadas, carecendo cuidados e equipamentos de lazer, verdadeiros terrenos baldios, onde o mato alto e o lixo imperam. A urbanização destas não demanda nenhuma fortuna, apenas boa vontade política.
Outro calcanhar de nossa cidade está na drenagem. A cidade foi crescendo. Extensas áreas foram impermeabilizadas e ruas estão até hoje sem a devida rede de galerias. São 10.700 ruas asfaltadas, outras 3.000 ainda estão sem o benefício e sem galerias. Por conta disso, temos dezenas de erosões que assoreiam nossos cursos d´ água. É bem verdade que nenhuma grande erosão surgiu nos últimos tempos, mas ao mesmo tempo não fomos capazes de tapar em definitivo estas grandes cicatrizes.
Não podemos ainda deixar de registrar o nosso papel para com a conservação do Cerrado, um dos biomas mais ameaçados do mundo. Restam menos de 0,8% em São Paulo, sendo que importantes fragmentos ainda restam em Bauru. Assistimos ao avanço da cidade justamente nestas áreas, as mais valorizadas. Já passou da hora de a cidade dar um basta na devastação.
Tudo isso nos mostra que o slogan de cidade sem limites, foi irresponsável. Desenvolvimento precisa ser sustentável, socialmente justo, economicamente viável, ambientalmente adequado e ético.
Por final, temos que reconhecer que importantes passos estão sendo dados com o novo Plano Diretor Participativo, que precisará agora receber da Câmara o mesmo apoio que recebeu da população. Não será a solução de nossos problemas, mas pelo menos ele aponta em uma direção, e isso já é um grande começo.
Tudo o que fazemos contra a natureza de uma forma ou de outra volta contra nós mesmos. Tudo está interligado. Todos juntos fazemos parte de um grande equilíbrio que mantém a vida em todas as suas formas. Nosso Planeta é nossa casa e precisamos cuidar dela com todo o respeito, amor e carinho.
O autor, Rodrigo Agostinho, é ambientalista, representante da sociedade civil no Conselho Nacional do Meio Ambiente e na Comissão Nacional de Biodiversidade e vereador em Bauru