Tribuna do Leitor

São Paulo e Lula


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Sou paulista, radicado na cidade de Santo André, ABC, desde o ano de 1964. Nasci na cidade de Lucélia no ano de 1949, morei 10 anos em Bauru (1988 a 1998), e adotei a cidade como minha segunda terra natal. Conheci em Bauru pessoas fabulosas, pelas quais tenho grande apreço e admiração. Hoje sinto saudades dos amigos que deixei.

Tenho retornado à cidade constantemente, a trabalho, bem como a passeio, pois minha filha Isabela nasceu em Bauru. O comentário que faço hoje nessa coluna do leitor me remete aos tempos em que dava entrevista ao Jabbour, ao Erlington Goulart e ao saudoso “Dede”, na rádio Unesp. Continuo acompanhando até hoje os acontecimentos diários de Bauru através do Jornal da Cidade, por algumas vezes até mandei artigos para a coluna do leitor.

Hoje me vi na obrigação de voltar a mandar mais um comentário, sobre o artigo “São Paulo e Lula”, assinado pelo senhor Luiz Alfredo Rodrigues de Santana, onde o mesmo apresenta uma série de dados sobre o fracasso do governo Lula, e a partir daí tira algumas conclusões sobre a capacidade do nosso presidente.

Não vou entrar no mérito dos números apresentados, não vou também questionar se o Lula está ou não fazendo um bom governo. O assunto que eu quero tratar é o dos princípios básicos da democracia, o direito à LIVRE manifestação do pensamento, o direito de ir e vir, o direito de se organizar, o direito e escrever, falar, o direito as minorias, o direito das mulheres, dos idosos, das crianças, o direito a opção sexual de cada cidadão, o direito dos excepcionais, etc.

Conheço a história recente e sei que muitos cidadãos democratas da cidade de Bauru, que como eu lutaram para que o nosso País voltasse ao Estado de Direito, preservam com muito ardor a democracia. Os generais, comprometidos com os interesses norte-americanos, que promoveram com o apoio da classe média moralista discriminatória o golpe militar de 1964 derrubaram um presidente eleito pelo povo brasileiro, da qual o seu programa de governo tinha o compromisso popular, pois propunha as reformas de base, entre eles o da reforma agrária.

Os golpistas prenderam e torturaram estudantes, operários, professores, civis e militares, homens e mulheres que ousaram defender a Constituição, acabaram com os partidos políticos e fecharam o Congresso Nacional, se apossaram do poder com o apoio dos norte-americanos e editaram no dia 13 de março de 1967 (em nome da segurança nacional) a “Pérola do Autoritarismo” - o Decreto lei número 314 a Lei de Segurança Nacional, que posteriormente foi ainda mais “aperfeiçoada”, com o ato institucional número 5. Essa “Pérola Autoritária” tinha no seu artigo 48, a seguinte redação: “A prisão em flagrante delito ou o recebimento de denuncia, em qualquer dos casos previstos neste decreto-lei importara, simultaneamente, na suspensão do exercício da profissão, emprego em entidades privadas, assim como de cargo ou função na administração pública, autarquia, em empresa pública ou sociedade de economia mista, até a sentença absolutória”.

Essa saga dos generais (com o apoio da classe média moralista) perdurou durante muitos anos, atingiu milhares de brasileiros, civis e militares, alguns foram presos, exilados, perseguidos, torturados, assassinados, desaparecidos, proibidos de trabalhar. Todos aqueles que ousaram manifestar o livre exercício do pensamento na imprensa, na arte, na cultura, na música, na livre organização foram perseguidos e tiveram seus direitos políticos cassados. Essa situação perdura até hoje, pois a cultura dos falsos moralistas ainda permanece muito viva na cabeça de “alguns saudosistas”, que insistem em ser discriminatórios no credo, na arte, na política, na cor, no sexo, em todas as manifestações de Liberdade de ir e vir e pensar.

Para quem insiste em “saudosismo autoritário”, uma boa reflexão seria o estudo da história das lutas pelas liberdades democráticas do povo brasileiro, onde poderá compreender que em 1979 os mesmos generais que, apoiados pela classe média, rasgaram a nossa Constituição e instituíram o autoritarismo foram obrigados a retroceder e criar as condições para o retorno à democracia.

Promoveram uma Anistia bem à sua maneira, promoveram todos aqueles que direta ou indiretamente lhes davam apoio, os opositores foram compelidos à aposentadoria forçada e no auge de suas capacidades laborais foram jogados num gueto que hoje são chamados por alguns saudosistas de vagabundos. Entre eles Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Luiz Inácio da Silva, o brasileiro que lutou pelo direito dos trabalhadores, reivindicarem se organizarem, foi preso por isso e que continua sendo perseguido por alguns até hoje por ser de origem nordestina, pobre e sem diploma universitário.

Eu, como paulista, também não tenho diploma universitário, estudei até a admissão no ginásio estadual José Firpo, na cidade de Lucélia, sou mais analfabeto do que o nosso presidente, pois ele estudou no Senai um curso de torneiro mecânico. Eu nem isso pude fazer pois tive que optar ao trabalho para ajudar meus pais a criar meus irmãos menores. Tenho muitos argumentos para questionar o governo, para criticar muitas atitudes dos políticos de uma forma geral, mas nenhuma tão preconceituosa como a manifestada pelo senhor Luiz Alfredo Rodrigues de Santana. Como eu, tenho certeza muitos paulistas e bauruenses também comungam com o meu pensamento.

Nelson Martinez - RG 4.454.478-9

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