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Entre o abismo e a rendição


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A chegada de Mahmud Abbas ao poder trouxe esperança de melhoria das condições de vida aos palestinos: a corrupção e o generalizado desvio de verbas públicas, costumeiros na época de Yasser Arafat, talvez estivessem acabando. A população palestina também tinha a esperança de que as relações entre a Autoridade Palestina e Israel pudessem melhorar, o que certamente refletiria na vida do cidadão comum. Desde o começo da crise do ano 2000 - que iniciou a nova intifada - o número de palestinos pobres subiu de 600 mil para mais de 1,6 milhão. Quatro em cada dez palestinos (segundo a Organização Internacional do Trabalho, vinculada à ONU) vivem abaixo da linha de pobreza, com rendimentos inferiores a US$ 2,10 ao dia. Nos territórios ocupados por Israel, só 11% das mulheres e 50% dos homens palestinos em idade de trabalhar têm um emprego.

Diante de tão difíceis condições de vida, é compreensível que a paciência dos palestinos, na espera de melhorias, seja pequena. A ansiedade transformou-se em protesto, nas eleições do início deste ano, quando o grupo Hamas conseguiu expressiva vitória. No poder, o Hamas ficou diante de um dilema dilacerante: ou o grupo reafirma sua posição de não reconhecer a existência do Estado de Israel, enfrentando imediata repulsa da diplomacia dos países que sustentam- com donativos - a máquina estatal palestina; ou se curva às necessidades administrativas e econômicas, aceitando Israel como um fato consumado.

As lideranças do Hamas decidiram manter suas posições históricas e estão pagando caro pela coerência: desde março, os EUA e a União Européia suspenderam a ajuda financeira que davam ao governo palestino. Israel aproveita-se do ambiente político desfavorável ao governo palestino paralisando a transferência de fundos relativos à coleta de impostos e tarifas alfandegárias dos produtos, importados pelos palestinos, que transitam por território dominado pelos israelenses.

O setor público palestino, que emprega 23% da população, entrou em colapso. Há três meses que os funcionários estão sem salários. A liderança do Hamas, ao alegar que foi eleita para cumprir sua plataforma política, minimiza um fato evidente: o grupo ganhou as eleições menos por suas idéias e mais porque a população fartou-se da corrupção generalizada e da incompetência administrativa da Fatah. Buscando manter sua coerência política, o Hamas chega a tomar atitudes surpreendentes como a de impedir o surgimento de um Estado Palestino nas fronteiras de 1967 (Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental) porque isto seria “reconhecer implicitamente a existência de Israel”.

As convicções do Hamas estão encaminhando a Autoridade Palestina para o impasse. Ao colocar, nas ruas, uma milícia de três mil homens para patrulhar cidades da Faixa de Gaza, o Hamas agride a legislação palestina, que atribui ao presidente da Autoridade Palestina (no caso, Mahmud Abbas, que é da Fatah) o domínio sobre todas as forças de segurança. Diante da reação de todos os grupos políticos palestinos e da rejeição internacional, o Hamas acabou recuando. É entre o abismo da paralisia econômica e a rendição de suas convicções históricas que o Hamas se encontra. Não parece existir uma saída honrosa.

O autor, Ney Vilela, é professor de história

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