Brasília - Os 507 sem-terra presos anteontem depois da invasão e depredação da Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), passaram toda a noite depondo no ginásio Nilson Nelson. Ontem, eles foram levados em grupos de 50 para o Instituto Médico Legal (IML), onde passaram por um exame de corpo de delito. Em seguida, foram transferidos depois para o complexo presidiário da Papuda. Eles serão autuados por dano ao patrimônio público, formação de quadrilha e corrupção de menores.
Os 11 líderes do grupo, que também serão autuados por tentativa de homicídio, estão detidos no 2.º DP. Outros 42 menores que participaram da ação de anteontem dos sem-terra serão transferidos para um albergue de Taguatinga, informou a Polícia Militar (PM). Segundo a PM, os sem-terra ficarão na nova ala do complexo penitenciário da Papuda, que ainda não foi inaugurada. A PM informou que essa ala tem condições de receber os detidos.
A invasão de anteontem foi orquestrada pelo Movimento pela Libertação dos Sem Terra (MLST), uma dissidência do MST. Os líderes do movimento disseram que a depredação começou porque os seguranças da Câmara impediram a entrada dos sem-terra na Casa.
Armados de paus, pedras e blocos de cimento, os sem-terra destruíram portas, paredes de vidro, equipamentos de informática, um busto de bronze do ex-governador Mario Covas, entre outras peças. Um veículo, que estava no saguão da Câmara e seria sorteado na festa junina dos funcionários da Casa, também foi destruído.
A Câmara contabilizou 41 - 26 ferimentos e 15 curativos - atendimentos médicos em seu ambulatório. Um dos feridos foi internado com traumatismo craniano mas não corre risco de morte. A Câmara também divulgou ontem uma estimativa parcial dos prejuízos pela invasão. Pelos cálculos da Casa, as perdas chegam a R$ 150 mil.
“Vandalismo”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou ontem a invasão da Câmara pelo MLST. Em discurso no Palácio do Planalto, Lula considerou o episódio “uma cena de vandalismo”, de pessoas que “perderam a responsabilidade”. “O que aconteceu no Congresso não foi um movimento reivindicatório. Eles não apresentaram pautas”, disse ele.
O episódio chegou a tal ponto que Lula já foi aconselhado a falar em cadeia nacional de rádio e TV sobre a invasão do Congresso. Segundo fontes do Planalto, o presidente teria ficado muito irritado com a invasão, porque avaliava que teria um “refresco” do quadro político com o início da Copa do Mundo.
Assessores do presidente consideram que o episódio será usado durante a campanha eleitoral no segundo semestre. “As pessoas podem até não gostar do Congresso, mas todos nós somos testemunhas de que esse País era muito menos seguro quando não tinha o Congresso”, disse ele.
Em entrevista após o discurso, o presidente afirmou que era responsabilidade do PT avaliar uma eventual punição a um dos lideres do MLST, Bruno Maranhão, que é dirigente do partido. “Deixe para isso para o PT resolver”, afirmou.
O presidente comentou que ganhou a eleição para que parte da sociedade, que antes era excluída, pudesse ter acesso ao Palácio do Planalto e citou que várias vezes recebeu movimentos dos sem-teto, dos sem-terra, entre outros.
O presidente ressaltou que já fez greves e passeatas, que já esteve por diversas vezes em Brasília em manifestações, mas que nunca passaram do limite. “Minha cabeça sempre teve certeza de que a democracia nos impõe limites e responsabilidades, que quando ultrapassados, cometemos atos ilegais e que temos que pagar o preço”.
Lula não quis comentar as críticas do candidato tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, que disse que o presidente deve satisfação à sociedade pelo episódio e que há “estímulo do governo a esses movimentos instrumentalizados”.