Tribuna do Leitor

Pintor Canela


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Lembro-me muito bem de seu porte físico.

Tinha estatura normal. Alto, pele clara, barba sempre por fazer, e sua voz o timbre grave dos locutores de rádio que, no passado, faziam os programas nostálgicos noturnos.

Canela é como todos o chamavam. Nunca cheguei, a saber, se seria apelido ou sobrenome. A verdade é que ele era muito popular e comunicativo. Dava muita atenção para as crianças. Todos gostavam dele.

Não era gordo. Era do tipo esguio. Acho que o cheiro de tinta e das cachaças que bebia mantinham-no com o corpo magro. Para qualquer serviço de pintura a preferência recaia sobre Canela, e ele não dispensava nenhum. Parece que os fazia mais por prazer da atividade do que pela recompensa financeira. Não cheguei a conhecer, mas sei que tinha família.

Assim, fazia da profissão de pintor seu meio de subsistência, bem como o de sua família. O fato marcante que o tornou inesquecível para mim foi sua atuação no período da Semana Santa, em Pongaí, cidade onde o conheci e lá morava. Pois bem, Canela pintou dois quadros alusivos à morte e à ressurreição de Cristo que ficaram gravados na minha memória, apesar de pouca idade na época.

Canela fez uma armação de madeira frente ao altar mor da igreja católica, e no chão estendeu grandes folhas de papel, onde, com a maior habilidade, se dispôs a pintar a paixão de Cristo e a tortura e sofrimento que os soldados lhe impingiam sem dó. E a tinta? Ora, a tinta era feita pelo próprio Canela. De que jeito? Muito fácil para quem quer atingir um objetivo. E ele queria dar o melhor de si. Naquele tempo havia para venda um tal pó xadrez de várias cores. Era com ele que as tintas eram coloridas para pintar as paredes das casas.

Canela misturava leite de vaca com esse pó da cor desejada para detalhes de sua pintura. E assim foi montando sua obra de arte até chegar ao ponto desejado em seu conceito. Esse quadro ficou exposto preso na armação de madeira durante os dias da paixão. Depois Canela preparou outro, o da ressurreição de Cristo subindo ao céu, como pressupõe a bíblia. Todos admiravam sua qualidade de exímio pintor, inclusive eu. Ele tirava do quase nada sua obra de arte.

Durante anos Canela ajudou a escrever a história de Pongaí, cidade que certamente amou. Nunca mais tive notícias dele, ou de seus descendentes, e, pelos anos que se passaram, poucos devem se lembrar dele. Acredito que o trabalho, a cachaça e o tempo foram consumindo suas energias. Não deve existir mais. Entretanto, sua presença ficou gravada na minha memória através dos anos, para nesta página lhe prestar justa homenagem, João Pinelli.

Itamir Crivelli

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