Polêmico, pornográfico, reacionário, sujo, doente e/ou o maior autor da dramaturgia brasileira. O escritor Nelson Rodrigues tem sua vida envolta em discussões, mas a companhia Antikatártika Teatral decidiu deixar toda a celeuma desnecessária de lado para atacar o cerne de sua obra e valorizá-lo como o grande observador da genuína tragédia brasileira. Em duas sessões, amanhã e domingo, na Estação Ferroviária, eles encenam “17 X Nelson – O Inferno de Todos Nós”.
As apresentações integram a programação da Caravana Paulista de Teatro, que trouxe à cidade “Stagium Dança Chico Buarque” e apresenta, ainda este mês, “A Voz do Provocador”, com Antônio Abujamra. Os ingressos são limitados a 100 lugares e já estão à venda na bilheteria do Teatro Municipal, a partir das 13h.
“17 X Nelson – O Inferno de Todos Nós” aproveita a data dos 25 anos da morte de Nelson Rodrigues para costurar, em um único espetáculo, cenas das 17 peças do escritor. Nesse mergulho na obra rodrigueana, a pesquisa da Antikatártika Teatral explorou suas travessias por gêneros como a tragédia, o épico e o cômico, ao mesmo tempo em que delineava seu caráter universal preocupando-se unicamente com a realidade brasileira.
De acordo com Nelson Baskerville, diretor do espetáculo e da companhia, ator e professor, a idéia inicial do grupo era justamente – em todos os sentidos – colocar Nelson Rodrigues no posto de melhor dramaturgo brasileiro. O próprio grupo surgiu a partir de um núcleo de pesquisa sobre o autor, coordenado por Baskerville, há cerca de cinco anos.
“Ao invés de falar dele como pornográfico e reacionário, mostramos que ele tem uma pesquisa muito profunda na busca da genuína tragédia brasileira, a partir da própria tragédia grega. Dizem que ele não lia, mas Nelson foi um leitor ávido e profundo conhecedor de literatura e dramaturgia”, coloca o diretor. Seu conhecimento pode ser percebido em suas quatro peças míticas – “Álbum de Família”, “Anjo Negro”, “Senhora dos Afogados” e “Dorotéia” – que seriam inspiradas diretamente nas tragédias gregas e seus temas desconcertantes.
Baskerville explica que o espetáculo busca uma cena de cada peça do autor, em ordem cronológica, inclusive deixando explícito o ano em que cada uma foi escrita. “Ele começa em 1941 e evolui sua produção até 1978, ano em que lança ‘Serpente’”, completa o diretor.
Unidade no inferno
Para costurar perfeitamente o tema das cenas selecionadas e a presença do público nos locais escolhidos para as apresentações, a companhia buscou uma unidade em um tema que abrange outros três grandes autores: o inferno. Assim, a teoria de apoio do espetáculo baseia-se, incialmente, em “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, e ainda em textos de Ítalo Calvino e James Joyce.
“Nelson Rodrigues diz que o inferno é a relação com o outro. Em qualquer lugar onde se estabeleça uma relação, estabelece o inferno; e como o lugar onde mais vivemos relações é dentro da família, nosso inferno é a família”, comenta Baskerville. “Dante costura todo o espetáculo, enquanto Calvino diz que você só consegue sair do inferno quando consegue abrir um espaço. Joyce entra na descrição de ‘Retrato do Artista Quando Jovem’, quando descreve o inferno como ‘estreita, negra e sórdida prisão fétida’”, aponta.
A encenação na Estação Ferroviária é simbólica, na opinião do diretor. O prédio que já foi o coração do Interior do Brasil e a esperança de ligação com toda a América Latina, e atualmente enfrenta o abandono na expectativa de ganhar vida novamente como empreendimento comercial, recebeu mais de três toneladas de cenários para “17 X Nelson”. “É uma experiência única, a estação abandonada tem tudo a ver com essa leitura do inferno que damos ao espetáculo. Como há problemas de energia, quase 80% da iluminação será feita por velas. Nos dá muito prazer oferecer o acesso da população à estação novamente”, comenta o diretor.
Nos diversos espaços percorridos pela peça, nove atores revezam-se pelos personagens das 17 cenas, nas quais buscam romper a convenção de palco-platéia e colocar o público no centro da ação. A preparação durou sete meses, incluindo aulas de meditação ativa e ioga. “Quando se vive muitos personagens sem ter de trabalhar uma grande caracterização, é preciso ir ao cerne do ator, para que cada um busque seu centro”, diz. As cenas são intermediadas por coros. No elenco, estão Adilson Azevedo, Anna Cecília Junqueira, Camila Raffanti, Felipe Schermann, Flávia Lorenzi, José Ferro, Luciana Azevedo, Marcos Ferraz e Ondina Castilho (também preparadora dos atores).
“17 X Nelson – O Inferno de Todos Nós” tem texto de Nelson Rodrigues e textos incidentais de Dante Alighieri, James Joyce e Ítalo Calvino. Iluminação de Wagner Freire, cenários de Duda Arruk e José Silveira e figurino de Marichilene Artisevskis.
• Serviço
Espetáculo “17 X Nelson – O Inferno de Todos Nós”, amanhã às 21h e domingo às 20h na Estação Ferroviária Central, ao lado do Museu Ferroviário, na quadra 1 da rua Primeiro de Agosto. Ingressos à venda na bilheteria do Teatro Municipal (avenida Nações Unidas, 8-9) a R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia-entrada). Mais informações: (14) 3235-1072.