Economia & Negócios

Vigiar carro: sustento a todas as idades

Lucien Luiz
| Tempo de leitura: 4 min

R$ 0,30 de um, mais R$ 0,50 de outro. Essas são quantias que o ajudante-geral Claudinei Cunha, 34 anos, recebe por “guardar” carros que ficam estacionados próximo a restaurantes, agências bancárias e até das empresas onde os donos dos veículos trabalham.

Ele, porém, não é o único nesta situação em Bauru. Crianças, adolescentes, adultos e até idosos se vêem obrigados a se submeter a esse ganha-pão para sobreviver. Cunha não pertence a nenhuma companhia de segurança, nem mesmo é contratado pelos estabelecimentos onde os donos dos veículos entram para almoçar, trabalhar ou bater papo entre amigos. Ele é mais um trabalhador informal que engrossa as estatísticas de desemprego e miserabilidade do município, do Estado e do País.

O ajudante, que não sabe ler nem escrever, está desempregado há quatro anos e, como tem mulher e três filhos pequenos para sustentar, precisa “se virar”, como ele próprio diz.

Dura rotina

O dia-a-dia do “guardador de carros” não é fácil. Passa horas olhando automóveis, cujos proprietários nem sempre manifestam interesse em retribuir. Quando isso ocorre, o “pagamento” é tão irrisório que não é possível sequer comprar mais do que um pãozinho de 50 gramas.

Atualmente, o local de trabalho de Cunha é a rua Agenor Gomes, no bairro Jardim Brasil, onde ele fica à espera de motoristas que estacionam na rua para almoçar num restaurante próximo. Segundo conta, em média ganha R$ 5,00 por dia.

“Chego às 10h e fico até o tanto que der. Tem pessoas que me pagam, outras acham ruim e vão embora sem me dar nada. A maior quantia que me deram de uma só vez, até hoje, foi R$ 1,00”, comenta.

Enquanto era entrevistado pela reportagem do JC, Cunha mantinha os olhos atentos aos carros que chegavam, temendo deixar de abordar algum motorista que poderia render mais alguns centavos ao seu caixa de moedas, um saquinho de plástico.

No final do mês, quando nenhum “bico” aparece, Cunha contabiliza um total de R$ 100,00 advindos do serviço de vigiar carros. O ajudante-geral mora com a família na Pousada 2, em Bauru, numa casa que está com as parcelas do financiamento atrasadas há vários meses. Com o dinheiro que consegue na rua, paga as contas de água e luz. A cunhada e outros familiares ajudam, mensalmente, com uma cesta básica.

R$ 20,00 por dia

No Altos da Cidade, Carlos Santesso Batista, 18 anos, consegue obter uma renda maior que a de Cunha guardando carros. Ele afirma que ganha, por dia, cerca de R$ 20,00 ou mais. Anteontem à tarde, além de cuidar de veículos, guardava o próprio ponto contra outros rapazes que ele supunha estarem interessados em seu “pedaço”.

“Depende muito do movimento, mas no final da semana dá para tirar um bom dinheiro. Tem pessoa que é muito gente boa. Já chegaram a me dar R$ 50,00 de gorjeta. Foi um cara que tinha uma caminhonete grande. Lembro que gastei no mercado, em Coca-Cola e comida. Não compro porcariada”, destaca o rapaz.

Batista mora no Parque Jaraguá com um irmão mais velho. Atualmente, cursa a oitava série do ensino fundamental.

Não há números oficiais em Bauru que mostrem a quantidade e o perfil desses trabalhadores. Fabrício Carlos Genaro, representante dos trabalhadores informais na cidade, adianta que a categoria, em sua maior parte, apresenta baixa escolaridade e está sem emprego há mais de um ano.

“Na realidade, eles são o efeito de uma situação, não a causa. Porém, são tratados como se fossem a causa. Não existem políticas públicas voltadas para o setor informal, capazes de sanar essa problemática”, considera.

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Bom dinheiro

“Guardar” carros tem sido a fonte de renda de Matheus Alves Fonseca, 21 anos, desde a infância. Seu ponto fica no Jardim Estoril, área nobre de Bauru, onde ele afirma que consegue faturar, por semana, R$ 150,00.

Esse valor, segundo ele, aumenta no final do mês quando recebe o pagamento de meio salário mínimo (R$ 175,00) por vigiar, das 20h às 2h, um consultório odontológico que fica no mesmo bairro.

“Aqui (no bairro) só tem magnata. Agorinha mesmo (anteontem à tarde), um político acabou de me dar R$ 10,00 para olhar o carro dele. Semana passada, um vereador me pagou R$ 50,00”, comemorava o rapaz.

Fonseca conta que com o dinheiro que ganha ajuda nas despesas da casa, já que mora com os pais, e compra roupas. Ele, que cursou até a oitava série do ensino fundamental, sonha em mudar de vida.

“Gostaria, na verdade, de voltar a estudar e de arrumar um emprego mais decente, onde eu fosse registrado e respeitado. Tomar conta de carro dá um dinheirinho razoável, mas muitas vezes, os motoristas humilham a gente”, comenta.

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