O Banco Central poderia ter continuado o declínio da taxa de juros com um pouco mais de vigor, reduzindo a Selic 0.75 e não apenas 0.50 como aconteceu semana passada . Muitas pessoas estão convencidas (eu, mais que todas) que havia espaço para uma redução maior, já que não subsiste nenhuma dúvida que a expectativa é de queda da inflação. A obrigação da autoridade monetária é observar o que acontece com a inflação no Brasil. É este o indicador que ele tem que seguir e, neste momento, a expectativa é de uma taxa de inflação abaixo da meta fixada pelo governo. Mas o Banco Central inovou desta vez, escudando-se numa expectativa de expectativas para não contrariar o que lhe parece ser a verdadeira expectativa do sistema financeiro. O excesso de cuidado do Conselho de Política Monetária ao realizar uma correção menor da taxa SELIC por período mais longo não tem justificativa razoável. Ele simplesmente produzirá mais desestímulos à ampliação da produção e retardará a volta do equilíbrio do câmbio, resultando em novo esfriamento da atividade industrial e dos investimentos para ampliar as exportações. No curto prazo reduzirá, como conseqüência, o ritmo de contratações pelo setor privado.
A economia brasileira não está crescendo o que devia e nem o que poderia crescer se não estivesse atrelada a uma política monetária pouco inteligente. Vamos ter um PIB este ano 4% maior do que em 2004, ou talvez 4,5%, mas é um crescimento claramente insatisfatório e nos mantém em condição de inferioridade em relação aos nossos concorrentes. Os “emergentes” que competem conosco no comércio exterior vão chegar ao final de 2005 crescendo no mínimo 6%, a maioria mais do que 6,5%, o que significa que vamos entrar atrasados em 2007 mais uma vez...
De outro lado, não representa grande coisa o anúncio “comemorativo” da redução da taxa básica de juro para 15,25 % ao ano, “a menor desde julho de 1994”. Em primeiro lugar porque não é o juro real de mercado. Este tem que ser calculado deduzindo da Selic a taxa de inflação, que em 94 era muito maior do que os 4,5 % de hoje. Quando se diz que a taxa hoje é a menor de nossa série histórica, estamos falando apenas uma meia verdade. Ela é sim nominalmente menor mas ainda é uma taxa de juros espantosa. A taxa de juro real hoje, após a última decisão do Copom, é de 11% real ao ano, o que mantém o Brasil no primeiro ou segundo lugar (a Turquia talvez tenha uma taxa ligeiramente superior) dentre os maiores juros reais do mundo. Por aí se vê que vamos continuar apanhando de nossos concorrentes, a maioria dos quais tem taxas de juros reais de 2% ou 3% anuais.
A continuidade do declínio da taxa básica de juros até pode merecer alguma festa mas, como no anúncio do chope, vamos fazê-lo com moderação...
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br