Os quatro rapazes de Liverpool influenciaram uma tonelada de bandas do britpop dos anos 90 que influenciaram diretamente os quatro rapazes de Bariri (SP). Robertinho e Renato Coletta, Saulo e Diego Gonçalves, esses tais quatro, são o Heropleno, que chega ao lançamento de seu primeiro CD, homônimo e independente como tudo de bom que vem aparecendo na música nos últimos anos.
Gravado em 2004, mas finalizado apenas neste ano, o disco tem 11 faixas que não economizam nas guitarras enquanto injetam, uma a uma, influências diretas do som produzido na ilha da rainha. Reflexo da idade dos integrantes, que têm entre 20 e 25 anos e receberam a explosão do britpop, com Oasis, Blur, Supergrass, Radiohead, Suede, Pulp e seus respingos em Travis e Coldplay, no início de suas adolescências, muito provavelmente depois da morte do grunge e antes dos músicos chegarem à fonte máxima do rock britânico – aqueles outros rapazes de Liverpool.
A primeira banda dos quatro, inclusive, chamava-se H. Skelter, homenagem à canção dos Beatles. E os músicos não negam a influência, mas acrescentam outros ingredientes. Robertinho, principal compositor do grupo, lembra que eles praticamente começaram a tocar juntos, por volta de 1996, pelo fascínio com o disco “Vamo Batê Lata Ao Vivo”, dos Paralamas do Sucesso.
“A gente tocava praticamente o disco todo, era quase um Paralamas cover. Depois, começamos a tocar músicas de bandas britânicas, principalmente Oasis, e de rock dos anos 70, mas sempre buscamos nossa autenticidade”, comenta o vocalista e responsável por guitarra e violão, que é acompanhado por Renato (bateria), Diego (baixo) e Saulo (guitarra). Os dois primeiros são primos e os dois últimos, irmãos.
Respiração solta
“Heropleno”, o CD, consegue remeter ao que de mais significativo foi feito pelas bandas britânicas nos anos 90, especialmente o Oasis, sem deixar de respirar algo dos 00. As canções não têm a pretensão de ousar em temas ou arranjos, o que torna o conjunto do disco condizente com seus músicos – jovens, no começo da carreira e buscando sua autenticidade focados no estilo que escolheram. Só por isso, já ficam acima da média do pop rock da atualidade.
O CD abre com as duas faixas mais pop, “Boa Notícia” e “Havia Um Tempo”, nas quais as guitarras apresentam solos mais curtos e remetem a canções do Embrace ou mesmo algumas mais inspiradas – e longe do ranço dos anos 80 – do Capital Inicial. “Respeito e Paz” pesa na letra, nas guitarras e na bateria: “Cartas já não existem mais/ É só o sol dessa manhã tão cinza/ Pela música minha alma dorme/ Junto do amor que eu não tinha”, canta Robertinho.
Outra faixa em que o peso ganha destaque ao lado de certa psicodelia é “Durma Bem”, com os vocais bem colocados. O clima Oasis impera em “Alguém Como Você”, onde até a virada dos versos lembra Liam cantando e a guitarra-solo parece quase ter saído dos dedos de Noel Gallagher. “A Única Vez”, por outro lado, é a mais Supergrass do disco, alegre e rápida na medida para compensar a letra de trauma juvenil.
Comparar é fácil, como seria fácil copiar, mas uma audição mais cuidadosa do disco mostra que esse é o estilo encontrado e muito bem definido pelo Heropleno para suas canções. “Diga que Vai Voltar”, “Canção do Adeus”, “Tudo Que eu Sou” e “Tanto Quanto Você” são exemplos de que a banda tem o que mostrar e que sabe ser original.
Para um disco fácil de acompanhar do começo ao fim, com canções assobiáveis e melodias do mais puro pop rock, é uma pena que a produção tenha abafado demais a bateria e deixado as guitarras afundadas e quase chiadas em algumas faixas.
Mais informações sobre a banda Heropleno podem ser encontradas no site www.heropleno.com.br.
Economia para o sucesso
Os quatro integrantes do Heropleno visam a música desde 1996, mas o sonho começou a virar objetivo apenas em 2000, quando eles formaram a H. Skelter. As composições próprias começaram a ganhar espaço no repertório, ao lado de covers de bandas nacionais como Paralamas e Skank, e internacionais, especialmente Oasis e Beatles.
Após a gravação de um primeiro CD demo, o grupo ficou em segundo lugar no concurso Rock’n’Halls, em 2002, deixando para trás mais de 2.400 bandas de todo o País. “Éramos os mais novos, foi uma conquista”, lembra Robertinho. O batismo como Heropleno veio em 2005, na busca de um nome mais curto e sonoro, e a banda teve uma canção transformada em ringtone pela operadora Claro.
O vocalista conta que todos os shows, festas, apresentações em barzinhos ou bailes de 15 anos tinham o cachê voltado para a gravação do primeiro CD. “Economizamos tudo para a gravação. O CD era um objetivo e conseguimos lançar. Agora, vamos divulgar nosso trabalho para aparecer, fazer nosso nome com a nossa música, porque acreditamos nesse trabalho”, frisa.
Sobre o cenário pop rock atual, Robertinho é categórico: “Tem gente boa, mas temos condições de ficar entre os melhores. Nosso som é autêntico, nossa história também. Sempre tocamos juntos e trabalhamos para nos tornar uma banda grande”, anseia, com sinceridade.