Telhado comprometido. Banheiro sem chuveiro e composto de uma privada cercada por uma cortina, tudo dividindo espaço com um tanque de lavar roupa. As paredes são cheias de buracos e vãos, por onde entra chuva e vento. Essa é a casa em que a catadora de papéis Silvanira Maciel, 53 anos, vive. “Quando venta, faz tanto frio aqui. Preciso de ajuda para reformar, senão isso tudo vai cair”, reclama.
Silvanira é o exemplo de como a situação de penúria pode transformar o inverno em um pesadelo para o bauruense na linha da miséria. O problema da catadora de papéis torna-se pior quando a essa descrição são acrescentados outros dados: ela divide o barraco (na rua B, 130, no Ferradura Mirim) com o marido, José Nicolau, que já não pode trabalhar em conseqüência de um derrame, e mais seis pessoas, entre filhos e netos. “Eu e a menina dormimos no chão”, conta ela.
A residência de três cômodos possui poucas camas. Na verdade, os móveis são escassos no barraco. “Perdi tudo quando minha casa pegou fogo”, explica. A antiga moradia ficava num terreno ao lado da atual. “Um dia cheguei de manhã em casa, depois de trabalhar a noite toda, e dormi. Acordei com o calor do incêndio”, conta Nicolau.
Silvanira estava na igreja (ela é evangélica) e não presenciou o fato. Ela se alegra pelo fato de todos os familiares terem escapado com vida. “Coitado, quase morreu queimado”, diz ela, referindo-se ao marido. Ela não é capaz de precisar a data do acontecimento. “Deve fazer uns quatro anos”, diz ela. Na verdade, Maciel sequer é capaz de falar com exatidão há quantos anos vive no bairro. “Acho que são uns dez, 12”, responde.
A casa atual foi adquirida pelo valor de R$ 150,00 na época do acidente. Se fosse vendê-la hoje, não saberia quanto ganharia no negócio. Nenhum filho ou neto recebe bolsas ou auxílios governamentais. “Não deu para pedir. Os documentos das crianças queimaram todos com a casa”, explica.
Além da renda que recebe com papéis e garrafas plásticas velhas, a família vive de doações de particulares. “Às vezes eu vou passando na rua e alguém me oferece um tênis, uma roupa, daí eu trago para as crianças”, diz. Apesar da necessidade, Maciel não pede ajuda. “É que Deus falou para a gente não pedir esmola. Agora, se alguém quiser ajudar de coração, eu aceito”, argumenta.