Ser

A alguns passos do altar

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar da tradição cultural, foi-se o tempo em que o matrimônio se traduzia como único rito de passagem para a vida adulta. Em busca da independência econômica, estabilidade profissional e emocional, é cada vez mais freqüente o número de jovens que passam anos namorando e preferem atrasar o compromisso formal.

É o caso dos estudantes Rochelle Gomes dos Santos, 20 anos, e Marco Antônio Higino Filho, 21 anos. Juntos há mais de cinco anos, eles não têm planos de oficializar a relação, pelo menos por enquanto. “Hoje tudo é muito complicado. Primeiro eu quero estudar e ter uma profissão estabelecida para depois firmar algo mais sério”, diz.

O estudante Iago de Matos Pinterich, 19 anos, e a atendente de farmácia Nádia Fávaro da Silva, 20 anos, pensam da mesma forma. Eles namoram há pouco mais de três anos e pensam em se casar, mas precisam de mais tempo para amadurecer profissionalmente. “É só mais para frente. Preciso me formar e ter mais condições financeiras para alcançar uma vida estável”, diz.

Além da questão econômica, muitos fatores podem atrasar o casamento ou até mesmo o “morar junto com o parceiro”, avalia a psicóloga Maria Ivone Marchi Costa, doutoranda em sociologia e especialista em terapia de casais e família.

De acordo com ela, um desses fatores está relacionado à fragilidade da relação. São os chamados namoros por comodismo, nos quais a pessoa não ousa terminar o relacionamento por medo de ficar só ou de recomeçar uma nova união.

“Em alguns casos, o namoro está fragilizado, a pessoa percebe que não pode evoluir para um casamento, mas ao mesmo tempo não consegue se separar porque o namorado a nutre de alguma forma”, detalha Maria Ivone. “Há casos, como, por exemplo, do outro ser uma companhia boa, fazer o papel de mãezona ou paizão”, comenta.

Dependência afetiva ou falta de autonomia emocional também podem contribuir para esse comodismo. “Pode ser que eles se gostem e a pessoa tenha uma relação estável, mas não o bastante para casar. Em alguns casos ela prefere esperar para ver o que acontece”, destaca a psicóloga.

Foi o que aconteceu com a operadora de cobranças Carol*, 25 anos. Ela namorou durante cinco anos e conta que seu antigo relacionamento era marcado por ciúmes e cobranças de ambas as partes. Apesar disso, continuavam juntos.

“A relação foi se desgastando, eu não tinha mais amigas nem ele saía com os amigos. Comecei a namorar aos 16 anos, ele era uns quatro anos mais velho do que eu, mas éramos adolescentes e não tínhamos maturidade suficiente”, analisa Carol.

Após o término desse namoro, ela conheceu seu atual marido e depois de um ano se casou. Hoje tem uma filha pequena e se sente realizada na vida conjugal. “Meu casamento é marcado pelo amor, respeito, companheirismo, amizade. Nem sempre o tempo que se está namorando vai dizer que a relação vai dar certo”, observa ela.

Já no caso da comerciante Renata Reis Liberato, 27 anos, e do empreiteiro Rodrigo Luís da Silva, 24 anos, o tempo de namoro foi decisivo para o amadurecimento da relação. Juntos há oito anos, eles ficaram noivos e já começaram os preparativos para o casamento, marcado para março do ano que vem. “Estava na hora porque temos muito tempo de namoro e não dava mais para ficar ‘enrolando’. Ir levando dessa forma é comodismo”, avalia.

“Quando começamos a namorar, éramos muito novos. Havia a questão dos estudos e profissão, mas agora estamos acabando de reformar uma casa e, como temos certeza de que queremos ficar juntos e construir uma família, decidimos casar e assumir essa responsabilidade”, diz Renata.

A advogada Maria Luiza Ortêncio, 25 anos, e o engenheiro Marcelo Del Guerra, 28 anos, compartilham de situação semelhante. Namorando há mais de cinco anos, eles decidiram ficar noivos em novembro. “Agora estamos esperando nos estabelecer profissionalmente para casar. Talvez ano que vem”, revela ela.

* Nome preservado a pedido da entrevistada

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Vínculos

Muitas vezes, a falta de autonomia emocional para “controlar as rédeas da própria vida” é acompanhada de baixa auto-estima, insegurança e sentimento de rejeição, aponta a psicóloga e especialista em terapia de casais e família Maria Ivone Marchi Costa.

“Dependendo da intensidade, isso é suficiente para impedir que a pessoa assuma responsabilidades de uma vida independente. É um grande desafio e muitas vezes ela prefere fugir.” Justamente por isso, observa ela, muitos têm dificuldade de manter vínculos profundos, como o casamento, e mantêm relacionamentos mais superficiais.

O individualismo, característica da sociedade moderna, também pode exercer influência nos namoros longos, aponta Maria Ivone. Segundo ela, diferentemente de outras décadas, atualmente o jovem demora muito mais para casar.

“Hoje eles estão mais preocupados consigo mesmos, investem na questão profissional em busca da independência financeira para melhorar seu padrão de vida, ter suas regalias ou mesmo ajudar os pais e partilhar com eles algumas coisas. Muitos estão fazendo faculdade, especialização, pós-graduação, mestrado e doutorado para depois casar”, avalia.

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