Ante os acontecimentos que vivemos ultimamente nas áreas política e social – aqui me refiro à tragédia de São Paulo- sinto a sensação da qual não sei os leitores compartilham, a de que vivemos um raro momento de desesperança, de descrédito em relação a tudo que vem dos três poderes. Tivemos a impressão (ou será certeza?) de que não há mais Estado, dominados que fomos não apenas por um criminoso profissional, frio e cruel, mas por uma gangue que age em paralelo, aquela que tomou de assalto o Estado e sua dignidade.
A grande questão que se impõe agora são as eleições, já bem próximas, e o que fazer, em quem votar, se devemos anular o voto ou não. Tivemos um movimento popular de três mil pessoas só em São Paulo, em 21 de maio, e não sei por que razão a mídia não divulgou os números das outras 21 cidades que aderiram ao protesto pacífico.
Não creio que alguém razoavelmente lúcido possa querer a reeleição de um professor Luizinho, de um Romero Jucá, de um Quércia, de um Paulo Maluf, um Sarney, um ACM, um Palocci, um Genoíno. Também fica difícil acreditar no futuro com a reeleição de Lula da Silva, fica complicado acreditar em Alckmin, que obstou mais de 60 pedidos de CPI na Assembléia Legislativa de S. Paulo. Complicado aceitar que os assassinatos de Celso Daniel e Toninho do PT não foram crimes políticos, ainda mais agora, com o surgimento de nova testemunha.
Vou moderar um pouco a crítica, doravante (neste artigo, somente). Mas pensemos: o ministro Marco Aurélio Mello, que ora preside o TSE-Tribunal Superior Eleitoral defende o voto “consciente”. Pés no chão! Como haveremos de querer consciência política de trabalhadores que labutam 13 horas por dia, cortando cana, por exemplo, ou desempenhando outras árduas tarefas? Que tempo, dinheiro e disposição têm para se interessar por política, chegando em casa “moídos”?
Não seria pedir demais? Mas eles são a maioria, e não têm, absolutamente, qualquer culpa por sua ignorância política!
Não vamos mudar este país em uma ou duas gerações, quiçá em cinco... Não tínhamos, nos tempos da ditadura, a disciplina “educação moral e cívica”? E por que não podemos hoje ter educação política, com o aluno, desde a mais tenra idade, sabendo para que serve e quais são os deveres de um deputado, um vereador, um prefeito, um governador?
Ora, servem para servir, obviamente, jamais para se servir! Todavia, até lá, até termos um sistema educacional decente, com professores motivados e bem remunerados, haveremos de percorrer a escuridão da falta de “consciência política” do tão ilustrado, por vezes incoerente e quiçá, com todo o respeito (mas com direito à crítica) um tanto alheio à realidade, ministro Marco Aurélio Mello?
Nossos brilhantes parlamentares, governadores, juízes, prefeitos, estão realmente preocupados e interessados em resolver os problemas, não o meu ou o seu – que podem esperar, caros leitores – mas aquele mais premente, do cidadão que não tem emprego, saúde, educação e dignidade?
Só peço a quem me lê que considere isto: “Não será demais exigirmos, de imediato, a tal “consciência política” de uma parcela da população que ignora os seus mais básicos direitos expressos na nossa magnânima Constituição dos Miseráveis de 1988?
Seguiremos nós reféns desta abjeta, tacanha classe política até que eles resolvam ter a bondade de iluminar nossas parcelas mais carentes com educação e saúde decentes?
Eis uma boa questão, um bom debate, se o tempo é senhor da razão, por outro lado ele é o algoz dos que vivem e sofrem hoje e agora, sem poder esperar, o carrasco daqueles cuja sobrevivência depende de gestos grandiosos e por isso mesmo humildes, do (perdão, utópico) desprendimento daqueles que nos governam.
O autor, Luiz Leitão, é articulista, e-mail: luizleitao@Allsites.com.br