Muito se tem falado sobre o novo aeroporto de Bauru, e muitas dúvidas pairam no ar. É inegável a importância do novo aeroporto para a cidade e região. Foi uma conquista esplêndida para todos. O atual, de propriedade do Aeroclube, foi de grande valia para a cidade e região. No entanto, para uma cidade com cerca de 350 mil habitantes, é inaceitável a existência de apenas uma empresa aérea operando, ainda assim com as aeronaves AT-40 de baixa capacidade. Há que se lembrar que os Fokker-100 da TAM deixaram de servir a cidade por falta de condições operacionais e segurança do aeroporto.
Um fato, no entanto, chega a ser estarrecedor! O processo utilizado para a concepção do novo aeródromo contradiz a todos os compêndios de planejamento de transportes. Primeiro, decidiu-se pela construção do terminal e, na fase final da obra, ocorre o debate sobre a sua vocação: carga ou passageiro? Considerando o porte do empreendimento e os recursos a ele alocados, no seu todo, é um absurdo construir e somente depois buscar a serventia desta facilidade aeroportuária. Há quem diga que o novo terminal deve ter função, desde já integradora de transporte, interagindo na troca de cargas com a rodovia, ferrovia e até hidrovia. Isto parece ser um grande equívoco o caso em questão.
A participação do transporte aeroviário de cargas é ainda incipiente na matriz de transporte de cargas brasileira, representando apenas 0,3% da quantidade de carga transportada em toneladas-quilômetro. O transporte rodoviário é responsável por 63%, o ferroviário, 20%, o aquaviário apenas 13%. O modo aquaviário, particularmente o realizado através da hidrovia Tietê-Paraná, transporta basicamente produtos de grande volume e baixo valor agregado, tais como cana, calcário, soja, etc. Por sua vez, no ferroviário, os produtos também têm pouco valor agregado: combustíveis, minérios, soja, contêineres, etc.
O modal aéreo de cargas é considerado, ao mesmo tempo, o mais rápido e o mais caro entre os meios de transportes e tem como vocação a movimentação de mercadorias fracionadas, expressas, perecíveis, com alto valor agregado, baixo peso e volume, que demandam soluções logísticas específicas e diferenciadas. O setor requer data de entrega rígida e prioridade de urgência, como é o caso de documentos, amostras, perecíveis, etc. Estas, não parecem ser as características da produção atual da região de Bauru. Assim, fica um pouco difícil imaginar que a intermodalidade entre os transportes aéreo, ferroviário e hidroviário possa se tornar uma realidade, através do aeroporto de Bauru, ao menos em curto prazo. Que horizonte se pode deslumbrar para Bauru? Mire-se no exemplo de Campinas.
O aeroporto de Virapocos é o segundo maior aeroporto internacional do Brasil, possui o mais importante terminal de cargas da América do Sul, e é fruto e conseqüência do grande crescimento industrial da região de Campinas. Desde a sua criação, 1960, vem passando por longo processo de maturação vocacional e de crescimento. Porém, somente na década de 1990 ficou definida sua vocação para cargas, passando a obedecer às diretrizes de seu Plano Diretor. O seu crescimento visa, em grande parte, atender à demanda crescente pelo modal, manifestada pela vocação de tecnologia de ponta desta região: produtos de informática, automobilísticos, para aeronáutica, química, eletro-eletrônica, etc.
O que fazer em Bauru? O novo aeroporto está para ser concluído. Suas primeiras operações serão, sem dúvida, com o transporte de passageiros. A sua presença poderá atrair empresas com perfis produtivos alinhados com a logística aérea de cargas. Porém, a viabilização de um grande centro logístico de cargas em Bauru poderá ser concretizado somente a longo prazo. Mas, o trabalho para esse fim deve começar agora.
O autor, Archimedes Azevedo Raia Jr., é engenheiro, mestre e doutor em transportes e professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de São Carlos. E-mail: raiajr@power.ufscar.br