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Alice no País dos Ponteiros


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É longa a história de inimizade entre os românticos e os relógios. Quem sonha, é avesso ao tempo. Os ponteiros, sempre tão inquietantes, correm a devorar segundos preciosos da vida e os líricos habitantes do planeta vivem a choramingar pelo tempo perdido. Mas, afinal, o que é “perda de tempo”? Cada um com seu ponto de vista, a “perda de tempo” é um conceito imaginário que se alinha com valores estritamente individuais e subjetivos. Por certo, eu e você pensamos de modo diferente, mas considero legítima perda de tempo tudo aquilo que, de alguma forma, me rouba a possibilidade da contemplação, do enlevo, do mergulho, do embevecimento.

Tempo jogado no lixo é a costumeira pressa que nos seqüestra nos horários parcos de almoço, o telemarketing que nos arranca sorridente da mesa, o trabalho árduo e sem fim para pagar o supermercado, o final de semana que atravessa amontoado de obrigações supérfluas. O relógio que foi inventado para auxiliar o homem na quantificação das frações do dia, agora é o imperador de tudo o que se move, ditando o ritmo cruel na nossa marcha através da vida.

Hoje não temos tempo para os deliciosos rituais da preparação e da espera, coisas tão lúdicas, agora relegadas a um recente passado. Da festa de casamento em família ao cinema dominical, tudo parece ser apenas uma questão de oportunidade a ser aproveitada ou descartada, como um mero programa escrito na agenda para ser cumprido com eficiência. Também não nos resta tempo para curtir a essência dos nossos momentos históricos; o antes, daquele encontro; o depois, das nossas emocionantes conquistas; o durante, no afago aos nossos amores; o doce sabor das deliciosas vitórias. Tudo deve ser guardado rapidamente nas gavetas íntimas do esquecimento para que o trem das novidades não nos atropele em sua fúria veloz. Na conversa mágica, o celular soa; no clímax da música, um desconhecido lhe cutuca os ombros para vender algo inútil; no caminho do revigorante mergulho para dentro de si, o cérebro desperta a ouvir o alarme insistente que dispara no quarteirão. Nem ficar a sós com os próprios botões, hoje em dia é permitido.

É um paradoxo, mas hoje vive-se para sobreviver. Será isso vida ou sobrevida? Vida com qualidade ou vida com quantidade? Vive-se melhor por que está fresquinho ou está fresquinho por que se vive melhor? Quem será este sádico senhor do tempo que nos tortura oferecendo-nos a miragem ampliada do prazer e tirando-nos a possibilidade do verdadeiro desfrute? Quem será esse miserável patrão que se diverte à custa da nossa pressa em tentar sugar, como beija-flores, gotículas de felicidade, dos flagrantes momentos que se sucedem na nossa vida, feito cenas de filme em fast motion?

Hoje eu sei quem manda nos relógios! Quem mexe os nossos ponteiros é esse tal capitalismo, agora chamado de “novo-capitalismo”. Reféns e algemados a este destino traçado pela inteligente ganância humana, nós hoje vivemos como automáticas máquinas eficientes, programadas para fazer sucesso ou para se auto-destruir a qualquer momento. A regra de hoje é: reciclagem ininterrupta ou o fantasma da inutilidade. Quem teima em “matar o tempo” passeando pelos bosques da vida ou rodopiando os seus mais queridos no colo, está automaticamente condenado ao fracasso. Você curtiu? Deixou-se levar pelas bobagens amorosas em vez de se tornar uma ferramenta melhor para o seu patrão? Azar o seu... O preço é ser cuspido fora dessa estimulante máquina de fazer dinheiro, desse liquidificador de almas chamado mercado globalizado. Quem tem medo de ser inútil? E pior: quem tem medo de ser útil? Você tem medo de passar fome ou de morrer correndo atrás da cenoura? O que é pior? Correr feito maluco na frente dos ponteiros ou desesperadamente atrás deles? Talvez “Alice no País das Maravilhas” tenha descoberto esta resposta. Eu, que não sou Alice, ainda não descobri.

A autora, Luciana Gonçalves, é radialista e profissional de telecomunicações e marketing

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