A vida na prisão e o sonho de liberdade são ao mesmo tempo realidade e ficção no espetáculo “Grades”, que o grupo teatral Enquanto Ela Não Vem do Instituto Penal Agrícola de Bauru (IPA) apresenta gratuitamente nesta noite no Teatro Veritas da Universidade do Sagrado Coração (USC). No palco, sentimentos e situações reais transformam-se em linguagens cênicas que envolvem e emocionam o público.
A história retrata as amarguras vividas atrás das grades através do olhar dos reeducandos do IPA. “Nos ensaios, eu propunha situações para eles resolverem e, assim, fomos construindo o texto coletivamente”, explica a diretora da companhia, Vânia Fonseca, que destaca a dificuldade de trabalhar a peça com o elenco. “Por tratar de sentimentos, como a solidão, a saudade e a perda, vividos entre as grades, foi um trabalho sofrido”.
E foi a partir desses exercícios que surgiu a história de Zé, um homem simples, que é preso por uma prática que, em seu território de origem, é costumeira: a de criar uma jaguatirica, espécie em risco de extinção. Julgado e condenado, Zé se depara com situações que lhe são absolutamente estranhas, como a linguagem judiciária e a dos próprios detentos.
À medida que absorve e é absorvido pela cultura carcerária, os demais personagens, companheiros de cárcere, compartilham com o público os piores momentos de suas vidas na prisão. “São depoimentos verídicos. Há histórias de motim, de contaminação pelo vírus da aids e também relatos de perdas de mulher e filhos”, cita Fonseca.
Construído para ser um espetáculo forte e agradável, o texto é um conjunto de quadros entrelaçados pela utilização de diversas linguagens cênicas, como a do clown e da dança-teatro. “É uma peça não-linear e que exige um pouco de abstração. Como não há cenário e figurinos, algumas cenas são simbólicas, como a da Balança da Justiça, construída com o corpo dos atores”, diz Fonseca.
O espetáculo, encenado por André Vaz, Hamilton Rocha, Thiago de Paula, Eder Moura, Elton Vales e Adriano Albino, estreou no dia 19 de maio em Sorocaba (SP) durante o lançamento da “Campanha de Simplificação da Linguagem Jurídica” promovido pela Associação dos Magistrados do Brasil (AMB).
“A diretora do curso de direito da Unip (Universidade Paulista) de Sorocaba soube do nosso trabalho e nos chamou. Tivemos cerca de 20 dias para montar o texto e foi justamente na época da eclosão dos motins. Enquanto havia um quebra-quebra no CDP (Centro de Detenção Provisória), nós estávamos produzindo dia e noite”, lembra Fonseca. As próximas apresentações de “Grades” estão marcadas para domingo no IPA e para o dia 12 de julho no câmpus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
• Serviço
Apresentação do espetáculo “Grades” hoje, às 20h30, no Teatro Veritas da USC (rua Irmã Arminda, 10-50). A entrada é gratuita. Mais informações: (14) 3235-7131.
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Autoconhecimento
A vontade de provocar o autoconhecimento entre os reeducandos e o amor ao teatro foram os fatores que estimularam Vânia Maria a criar o grupo teatral “Enquanto ela não vem” em 2001. Formada em direito, Fonseca trabalha há cerca de 20 anos no IPA e viu na arte uma forma de reinserir os detentos na sociedade. “O atual sistema prisional não pode reeducar ninguém. Ele apenas reproduz e alimenta o que há de pior no ser humano. A arte é uma forma de levá-los a pensar e a buscar outros caminhos”, acredita.
Com a inserção das atividades cênicas na instituição, a diretora passou a visualizar mudanças significativas nos reeducandos. “Hoje a companhia conta com 12 integrantes. O mais antigo no grupo está há um ano, mas, mesmo em pouco tempo, é possível verificar uma transformação nos semblantes dos detentos. No teatro, eles não precisam medir forças com ninguém, ali está a verdadeira liberdade”.
Mas não foi apenas a realidade dos reeducandos que se transformou, mas também a dos próprios funcionários do instituto. “Antes não havia um entendimento do trabalho. Eles achavam que os detentos não deveriam passar tanto tempo no teatro, mas hoje isso mudou. Quase não há mais resistência”, diz Fonseca.