Nacional

Catástrofe-pipoca

Por Marco Aurélio Canônico | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Numa época como a atual, em que o mundo vive próximo dos desastres humanos (terrorismo, guerras) e naturais (tsunamis, terremotos, furacões), o cinema pode funcionar como um painel das reações de gente comum frente às tragédias. Essa é a teoria que o diretor alemão Wolfgang Petersen (de “Tróia” e “Mar em Fúria”) apresenta para justificar seu “Poseidon”, refilmagem de “O Destino do Poseidon” (1972), a história do luxuoso cruzeiro que, na noite do Revéillon, é atingido por uma gigantesca onda e vira, deixando a tripulação submersa e com pouco tempo para escapar.

Teorias à parte, na prática a idéia do filme - que tem estréia nacional hoje, inclusive no Multiplex Bauru Shopping - é faturar milhões, como “blockbuster” de aventura e tensão, carregado de efeitos especiais, explosões, correria e, é claro, muita água. Em entrevista a um grupo de jornalistas, em um hotel em Beverly Hills, Petersen e o elenco falaram sobre o filme.

O diretor explicou que não quis fazer uma refilmagem idêntica ao original. “Não quis manter os personagens nem aquele estilo exagerado do primeiro”, disse. As mudanças de personagens são apenas cosméticas, no entanto, já que os estereótipos continuam. O papel do rebelde que lidera o grupo rumo à saída, antes representado por um reverendo (Gene Hackman), aqui cabe a um jogador de cassino (Josh Lucas). O responsável pela ordem agora é um ex-prefeito de Nova York (Kurt Russell), no lugar do policial vivido por Ernest Borgnine.

A diferença realmente notável entre os dois filmes está no desenvolvimento dos personagens, inexistente na refilmagem. “Investir mais em ação do que nas histórias pessoais foi uma decisão consciente”, disse Petersen. Só faltou combinar com os atores. “Na versão integral que filmamos, os personagens eram muito mais complexos”, disse a atriz Emmy Rossum. “Fiquei espantado quando vi que eles editaram a parte antes de a onda atingir o navio, em que se desenvolviam os personagens”, acrescenta Richard Dreyfuss, que vive um arquiteto gay. “Não tive muito espaço para atuação, praticamente não há diálogos, só chutei gente e corri em escadas”, disse, irônico, afirmando que sua motivação para o papel foi o caminhão de dinheiro oferecido.

É claro que há atores mais bem-comportados, como Kurt Russell, que viu vantagens na edição final. “Achei interessante o fato de você não saber nada sobre as pessoas.” De quebra, Russell atirou no original (que foi execrado pela crítica em seu tempo, apesar de ter faturado horrores) para sepultar quaisquer comparações. “O primeiro filme não é exatamente um ‘Casablanca’ ou um ‘... E o Vento Levou’, não havia por que não refazê-lo.”

No fim das contas, a teoria de Petersen talvez tenha algum nexo - afinal, vêm aí “Vôo 93”, sobre os passageiros de um dos aviões seqüestrados no 11 de Setembro, e “When the Leeves Broke”, o filme de Spike Lee sobre o Katrina. Mas “Poseidon”, formatado como um “blockbuster” de ação, passa bem longe disso.

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Instinto de sobrevivência

A melhor cena de “Poseidon” talvez seja aquela, no início, em que Richard Nelson (Richard Dreyfuss), na amurada do navio, prepara o suicídio. O navio está cheio de luz, mas o exterior é todo negro e, em meio ao negror, o homem consegue distinguir a onda gigantesca que se forma e ameaça o navio. Entre a morte escolhida - por suicídio - e a morte acidental - por efeito da onda -, o homem poderia deixar-se ficar na amurada e permitir que as coisas acontecessem. Mas não: ele vai para dentro.

Não existe nenhuma coerência em sua atitude (no sentido da velha coerência psicológica do personagem). E talvez seja isso que faz desse o momento mais interessante do filme: o personagem, assim como nós, não age buscando ser coerente, mas seguindo um impulso. Esse impulso, no caso, é vital. Todo o restante do filme também dirá respeito à luta pela sobrevivência.

Convém lembrar que o Poseidon é apanhado por uma onda gigante no Réveillon e emborca. Ao longo da aventura, a atitude das pessoas será o que se espera delas. O comandante será um comandante até o final, pedindo calma. As pessoas gritarão a cada sinal de que as coisas pioram, etc.

O filme seguirá um grupo heterogêneo de pessoas que tentará chegar ao casco do navio – em desacordo com as instruções do comandante. Inútil dizer que o comandante estava errado. Seguiremos, de início interessados, a aventura de personagens como o jogador Dylan Johns (Josh Lucas), o idealizador da fuga, o ex-bombeiro e ex-político Robert Ramsey (Kurt Russell), sua filha, o noivo dela, uma latina clandestina ou o suicida do começo. O interesse vem do que se anuncia ser a personalidade de alguns: o mais promissor é de longe Russell, de vida pessoal complicada, à vontade como herói e cujo conservadorismo ameaça a felicidade da filha.

Ao longo do filme dirigido por Wolfgang Petersen, essas personalidades, em vez de se desenvolverem, empacam e refluem. Como se os momentos de perigo tornassem as antigas paixões indiferentes. O filme também reflue: torna-se uma seqüência interminável de episódios acidentais, em que o grupo enfrenta os riscos por que se pode esperar.

Mas é como se estivéssemos diante de um velho seriado: há o grupo, os seguidos perigos, mas nada mais se desenvolve. Passamos a observar quase com indiferença as tremendas provas a que é submetido o grupo, pois não existe evolução dos personagens (ou é mínima). Ao final, tudo a que o espectador pode se apegar é à cena de Dreyfuss, no início: “Poseidon” é um filme em que triunfa o instinto irracional de sobrevivência. Se fosse um pouco menos bom rapaz e investisse, entre outros, no que essa vontade de sobreviver tem de irracional, incontrolável, eventualmente desumana, “Poseidon” seria um filme mais apaixonante.

Inácio Araujo/Folhapress

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