Na edição de Carta Capital da última semana (21/06/2006, na coluna Sextante) citei a estimativa feita pela Fundação Getulio Vargas no segundo trimestre de 2001, que antecipava uma redução no crescimento do PIB entre 2% e 2,5% naquele ano por conta do apagão energético que “surpreendeu” o governo FHC, já em seu segundo mandato. Comentei que, no nível do PIB nominal atual, significou uma perda de US$ 50 bilhões, devido simplesmente ao abandono do planejamento no setor energético brasileiro. Essa “barbeiragem administrativa” sem igual, além do custo fantástico naquele ano , ainda deixou como herança para a sociedade brasileira uma conta extra de US$ 10 bilhões do chamado “imposto apagão”! Ao todo são US$ 60 bilhões, uma fatura que, “trocada em miúdos”, corresponde a uma cobrança de 320 Reais que o governo FHC pendurou na conta de cada um dos 186 milhões de brasileiros.
Na verdade, a confirmação do estrago do “apagão” (que causou uma certa comoção na alta tucanagem esta semana) apareceu apenas incidentalmente no comentário, cujo tema principal foi a divulgação dos dados do IBGE sobre a atividade econômica no primeiro trimestre de 2006, mostrando uma inversão da tendência de crescimento do PIB que deve continuar e pode chegar ao final do ano em torno de 4%. A tabela abaixo compara o crescimento dos últimos quatro trimestres contra os quatro trimestres imediatamente anteriores:
Trimestre/ano.........Taxa de crescimento (%)
3º/2004........................4,0
4º/2004........................4,9
1º/2005........................4,6
2º/2005........................4,4
3º/2005........................3,1
4º/2005........................2,3
1º/2006........................2,4
Fonte: IBGE.
O que se comemora é a inflexão da taxa de aumento do PIB, ainda que pequena (de 2,3% para 2,4%). As informações fornecidas pela taxa de crescimento do primeiro trimestre de 2006, contra o último trimestre de 2005, (1,4%) são confortadoras. O gráfico abaixo registra no eixo horizontal a informação anterior desde 1992 e, no eixo vertical, a taxa de crescimento do PIB registrada no mesmo ano.
Em geral, quando aumenta o crescimento no primeiro trimestre, o ano termina com maior crescimento. Os anos onde “pressão e temperatura” variaram muito estão bem caracterizados: 1992, o “impeachment” do Collor; 1994 o entusiasmo com o plano Real; 1999 a liberação cambial depois de produzir 100 bilhões de déficits em conta-corrente; em 2001, incidentalmente, o “apagão de FHC” e 2002 a confusão causada na sucessão presidencial, quando se propagou que o Brasil iria virar Argentina.
Com base nessas informações, se a produção industrial crescer entre 6% e 7%, poderemos ter um crescimento anual na média do intervalo de 3,5% a 5%, ou seja, ligeiramente superior a 4%. Com uma taxa de inflação abaixo da “meta” de 4,5%, certamente 2006 será um de melhores de quantos temos vivido nos últimos 12 anos.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PMDB-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br