Economia & Negócios

4 itens consomem 74% da renda da classe média

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Em época de futebol-força, restou à classe média o ofício do drible. Para sair do vermelho, a genialidade de Garrincha deve ser superada diariamente por famílias cuja renda média mensal é de R$ 3.000,00. Neste caso, apenas quatro itens do orçamento doméstico abocanham 74% do provento de um casal com dois filhos. Alimentação é sempre a primeira do ranking.

Ela vem seguida de gastos com educação, plano de saúde e manutenção do veículo (incluindo o combustível). A situação, velha conhecida da professora de educação física Ana Carolina Campos, foi confirmada em estudo realizado pelo economista Carlos Sette.

Coordenador do grupo de Economia da diretoria regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, ele demonstrou com números que o aperto só diminui um pouco quando a família não põe a mão no bolso para bancar a educação. Quando as crianças estão matriculadas em escolas públicas, 56% da renda é consumida por alimentação e plano de saúde, além de combustível e manutenção do carro.

“Normalmente, ficam em escola pública até a 8.ª série e vão para uma particular no colegial. A família se aperta porque tem noção de que, com educação, os filhos podem superar os pais”, avalia Sette. De fato, na casa de Ana Carolina educação é prioridade. Os dois filhos, de 7 e 2 anos, estudam em instituição privada.

Sacrifícios

“Eles conseguiram bolsa, mas se não tivessem conseguido, continuariam numa escola particular”, explica a professora. De acordo com ela, não dá para abrir mão de ensino e alimentação de qualidade, mesmo que as atividades de lazer sejam sacrificadas e que o cheque especial seja alternativa.

“Acho que até o final do ano eu saio do vermelho”, prevê Ana Carolina. Suas expectativas positivas estão embasadas em duas circunstâncias pontuais: novo emprego e as bolsas de estudos. O benefício também foi concedido ao filho de outro casal, que pediu para ter o nome preservado. Profissionais da área da educação, são pais de um menino de 14 anos e de uma moça de 18.

“Eles estudaram em escola pública até a 8.ª série. A partir daí, não tem mais jeito (de mantê-los na rede pública). Nós tínhamos uma reserva que usamos para pagar o cursinho (da primogênita)”, comenta a mãe. Na opinião dela, formação é fundamental porque conseguir inserção no mercado de trabalho não é tarefa fácil nem mesmo aos profissionais bem preparados.

Essa consciência faz com que muitos jovens em idade de trabalho batam cartão só para garantir a matrícula numa faculdade, aponta Sette. “Em muitos casos, a família ainda tem de ajudá-lo com a mensalidade”, acrescenta. Por causa dos custos, muita gente deixa de cursar o que gostaria para freqüentar aulas de disciplinas com custos mais acessíveis. “É uma realidade terrível para o Brasil”, conclui o economista.

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Renda familiar

Juntas, as classes A e B representam 25% da população brasileira, sendo que a B é subdividida: a B1 é a classe média alta, cuja renda familiar é superior a R$ 3 mil mensais; já a B2 reproduz a classe média/média, explica o economista Carlos Sette.

De acordo com ele, as famílias de classes C, D e E passam o mês com salário inferior a R$ 1.800,00. Elas representam, no entanto, 75% da população. Os percentuais podem ser aplicados a Bauru, informa Sette.

A classificação econômica utilizada por ele é próxima da adotada por especialistas da Target Marketing, empresa de pesquisas de mercado.

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