A revista Veja publicou uma entrevista com Sílvio Abreu, 63, autor de “Belíssima”, novela da TV Globo de sucesso, na qual afirma ter descoberto que “a moral do País está em frangalhos”. Todo noveleiro global é obrigado, sob contrato, a atender aos anseios do público telespectador revelados mediante pesquisas diárias feitas pelo Ibope. O roteiro, a história, o caráter dos personagens, tudo é moldado de acordo com a preferência dos milhões de seres humanos diariamente postados no sofá da sala, diante da telinha. “As pessoas se mostram muito mais interessadas nos personagens negativos que nos moralmente corretos. Uma parcela da população já não valoriza a retidão de caráter. Para elas, o certo é fazer o que for necessário para se realizar na vida” - disse aquele autor.
Na novela, Alberto fez uma falcatrua para desmanchar o romance do rival. A Globo mandou pesquisar para saber como o público estava observando a trama. As donas de casa não viram nada de errado na conduta de Alberto. “Pelo contrário. Ponderaram que, se ele fez aquilo para conquistar um mulherão, tudo bem”. Estou usando as palavras do próprio Sílvio Abreu para ninguém achar que estou apelando para o meu imaginário negativista sobre a ética do brasileiro. A coisa não pára por aí: “O fato de o André ter dado um golpe do baú na Júlia foi visto com naturalidade. Colocamos que o canalha estava roubando e as expectadoras retrucaram: - Deixa disso. Se ele precisava de dinheiro, não havia mal”.
Evidentemente o dramaturgo não considera o quanto a televisão colabora para imbecilizar o povo com suas novelas, nas quais valores são invertidos. Outorga-se um tratamento respeitável para o marginal bem-sucedido, aquele que tem acesso aos melhores objetos de consumo. A própria sociedade é levada a aceitar a fraude e a criminalidade como “normais” porque a Novela das 9 reveste de glamour a falcatrua. Não é à toa que políticos mensaleiros e sanguessugas são vistos com simpatia e condescendência, com nuances de vitimização, inclusive. Talvez isso explique porque Lula dispara na preferência dos eleitores. Sílvio Abreu também coloca a fábrica de fazer doidos na posição de vítima: o povo é que contamina a televisão. Segundo entendi das suas palavras, para atender aos interesses e referências do mercado ninguém atira pérolas aos porcos, se estes querem lavagem. É uma realidade que supera as mais horrendas peças de ficção. Magos da tecnologia manipulam estatísticas para saber o que o povo pensa que quer, para satisfazer-lhe o desejo consumista. Na verdade dá-se ao povo o que ele deve querer. Exatamente aquilo que interessa ao sistema. Leia com atenção o que relata o autor de “Belíssima”: “Na mesma pesquisa, colhemos indícios claros de que essa maior tolerância com os desvios de conduta tem tudo a ver com os escândalos da política. O simples fato de o presidente Lula dizer que não sabia de nada e que não viu as mazelas trazidas à tona pelas CPIs e pela imprensa, basta. Fingem que acreditam porque acham conveniente que fique tudo como está”. Sílvio Abreu também põe culpa nas escolas, cada vez piores, e se esquece ser uma das obrigações constitucionais da TV, por isso mesmo uma concessão pública, trabalhar em benefício da educação, cultura, desenvolvimento artístico e à informação do povo brasileiro.
A tese reducionista do autor é que as pessoas querem subir na vida, ganhar dinheiro e dane-se o resto. Então, já que nem sempre isso é um ideal alcançável por qualquer ladrãozinho periférico - até para roubar é preciso ter a competência de um político eleito - malandros iniciantes se realizam no sucesso dos personagens canalhas das novelas. Na ótica do noveleiro, para quê aprofundar temas morais, conceitos de respeito, cidadania, segurança, educação, lazer, liberdade, honestidade, ética, amizade, humanidade, paz? “O público não consegue acompanhar”. Ressaltar valores, para ele, seria o mesmo que ensinar Shakespeare no inglês arcaico para o povo.
“Quanto mais nos afastamos dos nossos princípios, mais próximos estaremos do fim” – foi a sentença de Dante na “Divina Comédia”. Se nada disso assusta ou comove, então é melhor chamar aquele personagem de Tom Wolfe: “Que se dane... Que reine o caos... aumentem a música, mais vinho... Que se danem as posições... O degrau de cima é de quem chegar primeiro”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC