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Política pública dificulta prevenção, avalia médico

Erika Pelegrino
| Tempo de leitura: 4 min

O cardiologista Rubens Emil Cury, de Bauru, aponta dois obstáculos principais a serem superados para se obter sucesso no comportamento preventivo da população: políticas públicas centradas na conscientização e resgate da relação médico paciente. Segundo ele, as políticas públicas existentes são centradas na doação de medicamentos e as consultas, cada vez mais rápidas, não permitem ao médico esclarecer os pacientes.

O cardiologista afirma que os fatores de risco do enfarte e do AVC são doenças de saúde pública. Cury afirma que, no Brasil, a hipertensão acomete de 15% a 20% da população acima de 20 anos; o excesso de peso atinge em torno de 35% da população; diabetes, 8%; colesterol elevado (dislipidemia), de 20% a 25%.

“Estes percentuais exigem políticas públicas que envolvam os postos de saúde na prevenção e controle. Associado a isto, tem que haver capacitação dos médicos para que estejam preparados não apenas para o trabalho científico, mas social, humano”, afirma Cury.

A coordenadora de clínica médica da Secretaria Municipal de Saúde, Emília Pimentel Lopes, afirma que além da distribuição de medicamentos, as unidades básicas possuem trabalhos de conscientização dos pacientes. Segundo ela, o que acontece é que muitos pacientes não comparecem a estas reuniões. “O número de faltosos é grande. O brasileiro tem dificuldade de seguir um programa. A aderência ao tratamento é dificultada porque os pacientes querem resolver o problema do jeito deles’, afirma.

Problema é cultura

Profissional de enfermagem na área de medicina preventiva, em São Paulo, Marcela Duarte Arisa acredita na necessidade de uma reforma social. “O Estado tem o papel de oferecer o mínimo de condições para a promoção da saúde, como infra-estrutura, saneamento básico, controle social efetivo, acesso a exames, educação e informação em saúde”, afirma. “Acredito, porém, que nada disso funciona se as pessoas não compreendem estes fatores e como eles estão relacionados. Estou falando de educação pura e simples para que as pessoas tenham condições de fazer o autocuidado, em todos os aspectos de suas vidas”.

Na sua experiência como enfermeira, Arisa afirma que a questão da prevenção é cultural. “Os fatores de risco para doenças diversas (como as cardiovasculares) estão relacionados a hábitos de vida que estão há muito arraigados no cotidiano. Mudar não é fácil”.

Ela explica que pacientes com doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, não acreditam que estão de fato doentes e por isso não se cuidam. Mas essas são doenças silenciosas e estão relacionadas a problemas do coração. “O envelhecimento também ainda é visto como algo distante e até indesejável. Portanto, as pessoas acabam transferindo esta ‘preocupação’ sempre para depois”.

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Controle

O cardiologista Rubens Cury afirma que o controle dos fatores de risco das doenças cardiovasculares tem que ser rigoroso. “Não é um controle mais ou menos. É preciso ter metas”, explica.

Estas metas, segundo ele, são: pressão arterial abaixo de 130 por 85 em todas as pessoas; colesterol total abaixo de 200; LDL, abaixo de 130 para as pessoas em geral e abaixo de 100 para os diabéticos e pessoas que já têm alguma doença cardiovascular, ou com mais de dois fatores de risco; HDL acima de 50; peso próximo do ideal.

No caso do sedentarismo, a meta deve ser atividade física permanente e regular, numa freqüência mínima de quatro vezes por semana. Por exemplo, caminhada de 30 minutos, em marcha acelerada, associada a exercício de resistência para fortificar massa muscular dos membros superiores e inferiores.

A nutricionista do Serviço de Nutrição e Dietética do Incor (Instituto do Coração), em São Paulo, Lis Proença Vieira, afirma que a alimentação deve ser variada. Para fazer prevenção, ela explica que não se deve eliminar alimentos, mas adequar a quantidade. Uma alimentação balanceada precisa conter carboidratos, fibras, vitaminas e minerais (frutas, verduras e legumes), proteínas (feijões, carnes, laticínios). Esses alimentos devem ser consumidos diariamente.

Vieira alerta que os açúcares, gorduras de óleo, azeite e carne devem ser consumidos moderadamente. Já a gordura animal não deve ser ingerida. “As carnes devem ser magras; o frango, sem pele; e o leite, desnatado, até para crianças a partir dos 2 anos de idade”. Sal, outro vilão reconhecido da hipertensão, deve ser consumido numa quantidade de seis gramas diárias, segundo a nutricionista. “O brasileiro consome em torno de 12 gramas. Se retirar o sal da comida pronta, como a salada, já estará diminuindo esta quantidade”.

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