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Entrevista da semana: Presidente da Unimed faz linha dura

Erika Pelegrino
| Tempo de leitura: 9 min

Segunda mulher a presidir a Unimed de Bauru, em 35 anos da cooperativa, a endocrinologista Telma Regina da Cunha Gobbi, 47 anos, teve seu nome escolhido pelos colegas por representar a continuidade de ações firmes da antiga gestão. Seus colegas, como ela diz, a consideram linha dura. Não poderia ser diferente: Gobbi está a frente de 557 médicos cooperados. Ela atribui esta “fama” ao fato de gostar de regras e normas. “Se você começa a quebrar regras, você passa a gerenciar em caráter pessoal”, afirma. Sua grande meta à frente da Unimed é a qualidade. “Qualidade para usuários, cooperados e colaboradores”. Séria, competente, linha dura, mas uma “meninona”, como diz, com o filho Rodrigo de 9 anos.

“Jogo bola com ele, faço o que ele quer fazer”. Gobbi, no entanto, não abre mão de impor limites ao filho. “Conversando, eu nunca apanhei, meu filho também não.”

O senso de família também é muito importante para esta mulher que trabalha mais de 15 horas por dia, dividindo-se entre a atividade na Unimed e o consultório de endocrinologia. “Minha mãe, meus cunhados e irmãos são muito presentes em minha vida”. A presidente da Unimed declara amor à endocrinologia e afirma: “Sou médica, estou dirigente”. Conheça um pouco mais sobre Telma Gobbi na entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Como é presidir uma cooperativa com 600 médicos?

Telma Regina da Cunha Gobbi - São 557 médicos cooperados. Eu acho que presidir qualquer coisa é difícil. Presidir uma cooperativa é um pouco mais difícil porque são 557 donos, então você tem que gerenciar e, às vezes, vai de encontro, tem conflitos de interesse, mas o ditado é clássico: aquele que conseguiu agradar a todos, com certeza não gerenciou nada. A grande preocupação hoje no gerenciamento da Unimed é que é uma empresa grande, com faturamento em torno de R$ 12 milhões/mês. Então, a gente tem uma responsabilidade muito grande de gerir isso de forma adequada, de maneira que você dê um retorno ao seu cooperado, que você dê um retorno aos seus colaboradores e que você dê um retorno ao seu usuário. Então, é um triângulo de três lados iguais, essa é uma diferença muito grande entre uma cooperativa e uma S/A, o triângulo tem que ser muito bem balanceadinho, ele tem que ter os lados e os ângulos realmente iguais.

JC - Qual a principal característica que uma mulher tem que ter para conseguir isso?

Gobbi - Você tem que ter um bom atendimento ao usuário, você tem que fornecer reciclagem muito grande aos seus colaboradores porque eles lidam com um público totalmente diferente. É diferente da pessoa que vai ao cinema - ela vai contente, ela escolhe o filme, ela vai porque ela quer. Quando você envolve saúde, nem sempre existe uma alegria atrás, como um nascimento, por exemplo. Então já é um pouco mais ansioso, então você tem que ter o seu colaborador muito bem preparado e você tem que estimular, incentivar e favorecer que a sua gama de cooperados, que são os médicos, sejam altamente reciclados. Isso é fundamental, não existe bom atendimento sem conhecimento atualizado.

JC - Certo, mas e a característica pessoal de uma mulher que está à frente de uma cooperativa do porte da Unimed?

Gobbi - Se você perguntar a meus colegas, eles vão dizer que eu sou uma pessoa de linha dura. Eu acho que isso é uma característica da mulher, ser muito firme. Eu, particularmente, acho isso. Para mim tudo na vida tem o momento adequado. Você tem a roupa de brincar, de estar num lugar descontraído, de lazer e você tem a roupa social. Então, as situações exigem posturas distintas.

JC - E o que é essa postura linha dura?

Gobbi - Eu sou muito firme. Eu acho que as regras não são feitas para serem quebradas. A partir do momento que você começa a quebrar muitas regras, você perde uma diretriz, você pode estar favorecendo alguém, por amizade. Eu gosto muito de regras, de normas e gosto que elas sejam bastante claras e eu não gosto de fugir às normas. Eu acho que a partir do momento em que você começa a fugir às normas, você começa a gerenciar com caráter muito pessoal. E gerenciamento não é caráter pessoal, gerenciamento é administração de forma bastante profissional.

JC - E você acha que foi essa característica que te colocou na presidência da Unimed, como segunda mulher na direção da cooperativa de Bauru?

Gobbi - Eu acho que nós viemos de uma situação muito difícil há três anos, quando eu também participei da diretoria. O grupo, que foi muito unido, muito firme, conseguiu reverter uma série de situações. Então, nós acreditamos particularmente, acredito que os colegas queriam a continuidade das ações tomadas. Obviamente se você faz parte de um grupo, você concorda com aquela linha, então como deu certo, acho que viram na nossa pessoa a continuidade daquelas ações; e a transparência que foi dada na administração anterior e que nós fazemos questão que seja dada nesta também.

JC - E quais são seus projetos como presidente da Unimed?

Gobbi - O nosso projeto é dar realmente a qualidade A em termos de hospital. Nós estamos daqui a mais ou menos 30 dias, melhorando e ampliando a área de quimioterapia. Deve sair, no máximo até o fim da semana que vem, a planta de pronto atendimento amplo com 800 metros quadrados de área útil para dar um conforto na hora em que a pessoa precisa de um pronto atendimento... Nós vamos implementar muitos serviços dentro do hospital, nós implementamos a ISO na sede da Unimed. Nós vamos desenvolver o programa de qualidade hospitalar, então nós vamos voltar, realmente, a nossa gestão para a qualidade. Qualidade para o usuário, qualidade para o colaborador, qualidade para o cooperado.

JC - Você é endocrinologista. Quando você se formou, iniciou sua carreira médica, você imaginava um dia conduzi-la para a área de gerenciamento?

Gobbi - Não, nunca. Na verdade, eu nem ia ser endocrinologista. A princípio, eu queria fazer ou pediatria ou psiquiatria. Aí, eu me formei e senti a necessidade de uma formação mais generalista e daí optei por pediatria. Fiz um residência em pediatria e não me adaptei e abandonei. Daí, prestei nova residência, fiz dois anos de clínica médica. Quando fiz a clínica médica, e passei por todas as especialidades, me encantei por endocrinologia. Daí terminei a residência em clínica e fiz a residência em endocrinologia. Sou encantada com a endocrinologia até hoje. É uma ciência nova e vem crescendo muito. Gosto muito do que faço, faço questão de manter meu consultório. Costumo brincar com meus colegas: eu sou médica, estou dirigente. A minha profissão, a profissão que eu abracei, é médica.

JC - A função à frente da Unimed é temporária?

Gobbi - É temporária, acho que todos os cooperados, ou muitos deles, têm que passar por esta fase, tem que saber o que é gerir o próprio negócio. Não sou favorável à perpetuação (na presidência da cooperativa) tem que ter a renovação, muitos têm que passar por aqui para poder entender a cooperativa.

JC - Em que parte do seu percurso começou a nascer a dirigente?

Gobbi - Onde começou? Há três quando acharam que a cooperativa teria que ter rumos distintos e os próprios médicos, entre reuniões, surgiu o nome da gente para compor a diretoria. Foi um desafio. Eu gosto muito de desafio. Acabei aceitando o desafio.

JC - E como você divide seu tempo entre consultório, Unimed e família?

Gobbi - A função de dirigente eu não diria que ela absorve, mas que ela consome. Eu determinei que todas as manhãs eu fico na cooperativa. Normalmente, eu chego às 7h e fico até às 13h. Vou para o meu consultório e fico até às 22h, 23h. E muitas vezes temos (Unimed) reuniões à noite nos fins de semana. Para existir este equilíbrio, como fazia consultório de manhã e de tarde, eu prolonguei meu horário no consultório. A vida pessoal fica um pouco em detrimento. Então, você precisa de compreensão em casa, senão não dá para levar.

JC - Você trabalha então mais de 15 horas por dia?

Gobbi - Não tenho nem noção. Tem dia que eu chego em casa a 1h da manhã. Normalmente sábados e domingos tenho reunião. É complicado, mas acho que o que você tem que entender que é temporário e você tem que fazer isso, porque alguém vai fazer. Senão, isso não vai para frente.

JC - Você diz que tem que ter compreensão em casa. Você tem essa compreensão, certo?

Gobbi - Meu marido é médico, cooperado, então isto facilita muito. Eu tenho um menino, de 9 anos. Desde pequenininho, nós conversamos muito com ele. Ele tem bem claro quais são as obrigações do pai da mãe e eu acho que ficar com a criança, tem muita gente que fica muito tempo, mas a questão é a qualidade. Eu não tenho problema com meu menino não.

JC - E como você emprega qualidade ao relacionamento com seu filho? Como é a Telma mãe?

Gobbi - Eu sou meio meninona. Eu faço com ele o que ele quer. Se ele quer jogar bola, eu vou jogar bola. Eu e meu marido gostamos muito de esporte náutico. Então, nós incentivamos ele a esquiar, passear de lancha. Fazemos juntos o que ele quer. À noite, quando consigo chegar em casa em tempo hábil, antes era regra, não se dormia sem se ler alguma coisa: eu lia um pedaço, ele lia outro pedaço, o pai lia outro pedaço. Aí você vai criando toda uma relação importante e vai estimulando a criança.

JC - Família é muito importante para você. Vocês fazem sempre tudo junto: pai, mãe, filho.....

Gobbi - Em casa é tudo a três. E nós procuramos estimular muito o senso de família. Ele tem um senso de família interessante para idade dele. Muito preocupado com vô, vó, tios, primos. Se alguém estiver com problema, ele quer estar do lado. A minha mãe ajuda muito, demais. Ela foi muito presente da nossa vida e é muito presente na vida dos netos. Eu tenho preocupação com buscar meu filho na escola, minha mãe pega ele todos dias, acompanha tarefa, leva os netos para passear. A minha mãe se aposentou quando nasceu a primeira neta (hoje com 20 anos). Ela disse: “agora vou ajudar vocês a cuidar das crianças”.

JC - Nos momentos de lazer o que você faz?

Gobbi - É para família. Apesar de ser linha dura, eu gosto muito de brincar. Sou muito alegre, gosto muito de dançar.

JC - E quais são seus planos para o futuro?

Gobbi - Eu tenho um projeto de vida muito claro. Muito claro mesmo. Eu acho que todo indivíduo tem um tempo útil de trabalho e tem que ter um tempo útil de lazer. Eu sempre me programei para gerir minha vida para que eu possa ter um suporte financeiro, para ter uma idade para parar, mesmo sendo profissional liberal. Eu e meu esposo equacionamos nossas vidas para, em torno dos 60 anos, realmente poder desfrutar. A gente tem direito a desfrutar da vida.

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